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quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Armando Silva Carvalho: Os ovos d'oiro

 
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1.

Comei os ovos.
A galinha vive.
Passeia em bibliotecas
e tasquinha
junto aos muros
de Tebas.

Galinha grega.
Arredondando os ovos
sobre o mar.
Sorvendo pelo bico
as gotas gregas.

Talassiana.

Pelo cu desta galinha
sai um ovo.
E sai a caca.

Ave pesada de mais
para Aristófanes.
Encheu o papo
com milho de Aristóteles.
Os seus ovos são d'oiro.

Com as asas castigadas
sobe aos deuses.
Perímetra
glutona
empoleirada nos restos
de colunas
que as turistas beijam
e o cão do tempo mija.

Os homens de camisas claras
estendem sob o sol
as palmas ressequidas:
mais um ovo.

Os homens indispostos
caminham para trás
pisam os séculos
procuram nos quintais
do tempo
nos poleiros
da história
a passagem trôpega
da galinha grega.

Uma galinha ausente
que dava pios d'alma
bicava nos arquétipos
e quando punha um ovo
ouvia-se em toda a Renascença.

Não sabemos porquê
galinha escrita
pequeno corpo
pondo em alvoroço
os fregueses dos mitos
não sabemos porquê
tu ainda chocas
ou dormes no regaço
de Montaigne.

Imensos velhos
d'óculos
que cuidam d'aviários
perseguem toda a casta
de animais
apuram raças novas
para voltarem a ti
galinha grega.

Cisca a galinha
em torno
das estátuas
eterna vamp
do mundo arqueológico.

Aphroditíssima.

O bico
uma batuta
para o seu silêncio.
O gládio
suspenso
de uma antiga ânfora.

Enxotada entre guerras
e alianças.
Disseminando penas
largando por descuido
um ovo em cada voo.

Galinha grega.

2.

Áurea galinha
com sua crista em chamas
deixando estigmas
na poeira dos crentes.

Galinha empoleirada
nos profetas.
Criada pelos nobres
nos vastos e vetustos
vestíbulos da morte.

Galinha mais que d'ovos
feita d'oiro.
Alimentada a pérolas.
Cardíaca.
Polida. Quieta.
Aristocrata.

Quem te colou no bico
o teu latim?
A tua servidão
no choco?
Quem te abriu
ao meio
e te adorou?

3.

Quem perdoou a esta galinha
os seus arroubos?
As suas gagas soluções
de circunstância?

De grão em grão
haveis colheita
papo bancário
e ovos platinados.

Dá pulos oceânicos
o bípede loquaz
pondo ovos
catastróficos
e levando no bico
o raminho
metálico
da paz.

Quem perdoou
a estas naves
nada galináceas
a estes ovos
blondos
da galinha gringa?

(Os ovos d’oiro — 1969)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Armando Silva Carvalho (1938 2017), português da freguesia de Olho Marinho Óbidos, formou-se em Direito pela Universidade de Lisboa, teve passagem pelo curso de Filosofia, exerceu advocacia por um período, foi jornalista, professor do ensino secundário, técnico de publicidade, escritor, tradutor e poeta; no final dos anos 50, o poeta foi revelado pela Quadrante, revista acadêmica da Faculdade de Direito; enveredou-se pela publicidade por estar impedido de trabalhar em funções públicas por razões políticas; colaborou nos periódicos Diário de Lisboa, JL, O Diário, Poemas Livres, Colóquio-Letras, Hífen, As Escadas Não têm Degraus, Silex, Nova, Limiar, Via Latina, Loreto 13, ...; traduziu obras de Samuel Beckett, Marguerite Duras, Cesaire, Andrei Voznesensky, Jean Genet, E. E. Cummings, Vicente Aleixandre, Nicola Abbagnano, Mallarmé; suas obras: em poesia: Lírica consumível (Prêmio Revelação de 1962, da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1965), O comércio dos nervos (1968), Os ovos d’oiro (1969), O peso das fronteiras (1974), Antologia Poética (1976), Armas brancas (1977), Eu era desta areia (1977), Técnicas de engate (1979), Sentimento de um acidental (1981), Alexandre Bissexto (1983), Canis Dei (1995), Lisboas (2000), O amante japonês (2008), Anthero Areia e Água (2010), De amore (2012), A sombra do mar (premiado por várias associações e sociedades literárias, 2016), em prosa: O alicate (1972), O uso e o abuso (1976), Portuguex (ficção, 1977), Donamorta (ficção, 1984), A vingança de Maria de Noronha e Em Nome da Mãe (ficções, ambas em 1994).