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sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Lili Leitão: Em leilão & Operações do amor

 
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Em leilão

Quando o teu coração, poeta, exibiste
uma vez em leilão, para vendê-lo,
na venda original me garantiste
em suma, que era um coração modelo.

E por isso comprei-o, mas, ao vê-lo,
certifiquei-me de que me iludiste:
teu coração é um coração de gelo,
sem fé, sem crença, sem bondade e triste.

Arrependido estou de o ter comprado,
de ter um beijo meu por ele dado,
não tendo ele o valor sequer de um riso.

Podes levá-lo e devolver-me o beijo,
que neste mundo, onde só mágoas vejo,
de coração sem crença eu não preciso!

— o —

Operações do amor

Quando somos solteiros seduzimos,
Perversamente, as moças enganamos,
E as tolinhas, a quem amar fingimos,
São tantas, tantas, tantas, que somamos.

Quando noivos, porém, depois ficamos,
E levamos a sério o que sentimos,
As mentiras de amor que então pregamos
Muito instintivamente diminuímos.

Quando, casados, com fervor gozamos
Da esposa amada os delicados mimos,
A ventura e o prazer multiplicamos.

E, quando somos pais, enfim, sorrimos;
Numa vida feliz que desfrutamos,
A amizade entre os filhos dividimos.

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Lili Leitão, o Café Paris e a vida boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense e niteroiense, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam, e ali discutiam, os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas ...; colaborou em vários jornais, entre os quais n’A Capital, no Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, Niteroiense, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha (de 1922 a 1936); escreveu e publicou: Sonetos (em parceria com Sylvio Figueiredo, 1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas), Minha sogra é de outro mundo (1933), Caiu no laço, Niterói em cuecas e outras ...; com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas brabas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Lili Leitão: Não

 
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Desde que ao mundo fui arremessado,
Meu destino é igual de Sul a Norte;
Um “Não”, somente um “Não” tenho encontrado,
“Não” no amor, “Não” na gaita*, “Não” na sorte.

E assim venho vivendo amargurado,
Maldizendo a vida e bendizendo a morte;
Nascer foi das asneiras a mais forte
Que involuntariamente hei praticado.

Entretanto, esse “Não” que não me deixa,
Essa constante e eterna negativa,
A direta razão de minha queixa,

Esse “Não” que da mente não me sai
É consequência de uma afirmativa,
De um “Sim” que minha mãe deu a meu pai.


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página aduz acerca do uso da palavra 'gaita', e seu sentido, no soneto ora apresentado:
          gaita [gíria] = dinheiro, grana, bufunfa, dindin, prata, cascalho, tutu.
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Lili Leitão, o Café Paris e a vida boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense e niteroiense, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam, e ali discutiam, os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas ...; colaborou em vários jornais, entre os quais n’A Capital, no Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, Niteroiense, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha (de 1922 a 1936); escreveu e publicou: Sonetos (em parceria com Sylvio Figueiredo, 1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas), Minha sogra é de outro mundo (1933), Caiu no laço, Niterói em cuecas e outras ...; com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Luiz Leitão: A cagada*


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“Certa vez para dar uma cagada,
ou por outra, passar um telegrama,
embarafustei por uma reservada
de um Café que eu nem sei como se chama.

Entro e, ao cagar, sorte danada:
num dos papéis sujos de merda e lama
vejo o retrato da mulher amada,
por quem meu peito o coração se inflama.

Nisto, interrompo minha caganeira,
pego o retrato dela e boto na algibeira,
satisfeito, sorrindo e suspirando.

Que porco!  hão de dizer  mas eu protesto.
Porque assim procedendo, no meu gesto,
Provei que gosto dela até cagando.”

[Comida brava]


* Nota da edição: Poema gentilmente recitado de memória por Gentil da Costa Lima.
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Lili Leitão, O Café Paris e a Vida Boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (em parceria com Sylvio Figueiredo, 1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas), Minha sogra é de outro mundo (1933) e outras...; com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Lili Leitão: 9º Mandamento & Coruja


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9º Mandamento

Que os padres não me passem sarabanda
Por algum pecadinho que eu tiver;
Pois sou cristão de fato, em qualquer banda,
E hei de morrer assim, se Deus quiser.

Dos mandamentos faço propaganda,
Cumpro-os à risca, como a igreja quer,
Principalmente aquele tal que manda
Não desejar do próximo a mulher.

Apesar de um mortal estar sujeito
Às tentações que neste mundo vejo,
As mulheres dos próximos respeito.

Passei, por elas como passa um monge;
Tanto que da mulher que amo e desejo
O marido está longe... muito longe...

— o —

Coruja

Vai-te, coruja, vai-te, mais distante
pousar de mim, noutro qualquer arbusto,
onde eu não possa ouvir este implicante
gargalhar, que me causa horror e susto!

Não queiras perturbar-me; dormir custo,
ouvindo o teu cantar, coruja errante,
Deixa-me em paz, o que te peço é justo,
ave fatal, nojenta e horripilante!

Vai-te coruja, e seja a derradeira
esta vez em que te ouço, ave agoureira
que de pavor o peito meu trespassa...

Muita aversão eu tenho-te, acredita:
tua presença os nervos meus irrita.
Vai-te, ó prenúncio negro da desgraça!

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Lili Leitão, O Café Paris e a Vida Boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica "roda", para ali se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Luiz Leitão: Eu e o relógio


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Sou do relógio muito diferente,
Quer no tamanho, quer na formação:
Se trabalho como ele, diariamente,
É apenas para defender o pão.

Nada tenho comigo, propriamente,
Que se lhe tome por comparação,
Apesar de existir constantemente,
Um tic-tac no meu coração.

Eu sou de carne e ando sem corda, ao passo
Que o relógio que é feito de metais.
Trabalha à custa de uma corda de aço.

Até nisto nós somos desiguais:
Contrario o relógio, nada faço:
Se me dão corda, não trabalho mais...

([tablóide] O Almofadinha}

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Lili Leitão, O Café Paris e a Vida Boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (em parceria com Sylvio Figueiredo, 1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas), Minha sogra é de outro mundo (1933) e outras...; com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Lili Leitão: Nosso amor & Meu casório


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Nosso Amor

Foi num colégio público que andamos
juntos outrora, juntos aprendendo,
que muita vez, ingênuos, conversamos,
formosa, e que eu fiquei te conhecendo.

Depois, um dia, alfim, nos separamos
e nisso fomos, flor, ambos crescendo;
e bom tempo passou-se, que passamos
sem te ver, sem me veres, não nos vendo.

Porém, o acaso novamente quis
que nós nos encontrássemos, ó flor...
Bendito acaso, divinal, feliz!

Pois nesse encontro, no mais vivo andor,
foi que promessas lânguidas te fiz
e a roseira floriu do nosso amor!

— o —

Meu casório

Caso-me em breve, está determinado:
Vou deixar de bancar o solteirão.
Já tenho tudo pronto e preparado:
Papéis, igreja, padre e sacristão.

Já comprei uma cama de casado,
Dessas largas, macias, de enxergão,
Um terno almofadinha, bem cintado,
E uma casaca de segunda mão.

Comprei também chupetas, mamadeiras,
Fraldas, touquinhas e outras baboseiras,
Para os bebês que, um dia, Deus me der.

Meu casamento é um caso decidido,
Pois para muito breve ser marido
Só me falta arranjar uma mulher.

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Lili Leitão, O Café Paris e a Vida Boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Luiz Leitão: Treze

 
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O treze é um caso sério, meus senhores!
É o grande peso1 da população:
O maior malfeitor dos malfeitores,
A urucubaca2 da numeração.

Para mais aumentar os seus horrores,
Pragueja esta infernal superstição:
Da mesa, a que houver treze comedores,
O mais pesado3 vai para o caixão...

Morre... De fato, foi o que se deu
Numa ceia supimpa, colossal,
Em que champanha à beça4 se bebeu.

Éramos treze ao todo, a conta feia;
Doze, porém, rasparam-se, e, afinal,
O pesado fui eu morri5 na ceia...


Notas da edição de Vida apertada (Glossário, estabelecido por Luiz Antonio Barros):
  1. peso: ver pesado. [nota 3 abaixo];
  2. urucubaca: má sorte no que se faz ou intenta; ziquizira. Etim.: vocábulo expressivo, cuja base é urubu, ave de agouro que pressente os cadáveres; José Pedro Machado relata que Bueno afirma ser o vocábulo da época da gripe espanhola (1918), quando era muito utilizado. ([dicionário] Houaiss, 2001);
  3. pesado: infeliz ([A gíria brasileira, Antenor] Nascentes [filólogo], 1953); sem sorte: ([Novo dicionário da gíria brasileira, Manuel] Viotti, 1957);
  4. à beça: em grande quantidade, a valer, em grande intensidade. ([dicionário] Houaiss, 2001);
  5. morri: morrer: despender dinheiro para fazer um pagamento, quitar uma dívida etc. ([dicionário] Houaiss, 2001).
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Vida apertada, Sonetos humorísticos — Luiz Leitão, 2ª edição, Edição crítica, Organização e Notas de Roberto S. Kahlmeyer-Mertens e Glossário estabelecido por Luiz Antonio Barros, 2009, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, também de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Luiz Leitão: Amor e medo

 
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Arranjei, certa vez, uma conquista
Ao telefone, numa enguiçadela1
Uma Ivone, que amei, de voz singela,
Por obra e graça da telefonista.

Mas, sabendo, depois, que essa donzela,
Que me fez quase um vate futurista,
Era noiva de um tal Lulu Batista,
Respeitado no morro da Favela...

Nunca mais quis saber da dita-cuja:
Desprezei, para sempre, a D. Ivone,
Com medo de acabar numa água-suja2.

Inda hoje me arrependo, e me arrepio:
Por causa desse amor ao telefone,
A minha vida esteve por um fio3...


Notas da edição de Vida apertada (Glossário, estabelecido por Luiz Antonio Barros):
  1. enguiçadela: má sorte, problema. ([dicionário] Houaiss, 2001);
  2. água-suja: escândalo. ([Novo dicionário da gíria brasileira, Manuel] Viotti, 1957);
  3. por um fio: por um triz; por uma fração de segundos; por pouco. ([dicionário] Houaiss, 2001). O autor faz um trocadilho com o fio telefônico.
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Vida apertada, Sonetos humorísticos — Luiz Leitão, 2ª edição, Edição crítica, Organização e Notas de Roberto S. Kahlmeyer-Mertens e Glossário estabelecido por Luiz Antonio Barros, 2009, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, também de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

sábado, 27 de março de 2021

Luiz Leitão: Minhas dívidas

 
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Devo a vida a meus pais; ao professor,
O meu preparo, que não vale nada;
Devo à loja, à pensão, devo ao doutor...
Tenho a vida de dívida crivada.

Devo tudo: almofadas, cobertor,
Quarto, mobília, luz, roupa lavada...
Até meu terno, velho, já sem cor,
Estou devendo a um gringo * camarada.

Devo, não nego: estou devendo à beça!
Aos próprios santos, de quem não desdenho,
A cada um deles, devo uma promessa.

E apesar de viver endividado,
Para aumentar as dívidas que tenho
Eu vivo sempre a conversar fiado **...


Notas da edição de Vida apertada: (Glossário, estabelecido por Luiz Antonio Barros):
* gringo: estrangeiro louro ou ruivo; o argentino, o uruguaio. Judeu que vende a prestações. ([A gíria brasileira, Antenor] Nascentes, 1953)
** conversar fiado: ser dado a conversa fiada, ou seja, propósito de quem não tem interesse de cumprir o que promete, não tenciona cumprir o que promete, conversa sem interesse nem resultado. [idem, ibidem]
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Vida apertada, Sonetos humorísticos — Luiz Leitão, 2ª edição, Edição crítica, Organização e Notas de Roberto S. Kahlmeyer-Mertens e Glossário estabelecido por Luiz Antonio Barros, 2009, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, também de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Luiz Leitão: Ao público *

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Publicando estes versos incolores,
Que ao respeitável público ofereço,
Peço um sorriso apenas, dos leitores,
Já que boas risadas não mereço.

Fi-los por ter o espírito travesso,
Para, espalhando-os pelos compradores,
Minorar as torturas, que padeço,
Da vil perseguição dos meus credores.

Fi-los sem pretensões e sem vaidades,
Para abrandar um pouco a prontidão **,
A mais horrível das enfermidades.

São versos de uma musa atrapalhada,
De quem procura ver se fica são ***,
De quem vive, afinal, VIDA APERTADA...


Notas:
* o atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa faz constar que este  Ao público é o primeiro dos poemas constantes em Vida apertada e serve também como dedicatória aos leitores, além da apresentação da obra pelo próprio autor, Luiz Leitão ou Lili Leitão, como era conhecido;
** da edição de Vida apertada, do Glossário, de Luiz Antonio Barros: prontidão: condição de pronto, isto é, sem dinheiro. ([A gíria brasileira, Antenor] Nascentes, 1953);
*** em mais um atrevimento, este aprendiz de blogueiro supõe/entende que o poeta-humorista registra ver se fica são, neste segundo terceto do soneto, para trocadilhar com versificação.
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Vida apertada, Sonetos humorísticos — Luiz Leitão, 2ª edição, Edição crítica, Organização e Notas de Roberto S. Kahlmeyer-Mertens e Glossário de Luiz Antonio Barros, 2009, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, também de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Lili Leitão: Suíte

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Paro aqui. Tenho o livro terminado.
De continuar a versejar desisto.
Já dei sofrivelmente1 o meu recado.
Neste soneto, agora, ponho o visto.

Peço, entretanto, por amor de Cristo,
Que comigo ninguém fique zangado,
Pois, brevemente, se inda cuidar disto,
Voltarei mais feliz, mais engraçado.

Por esta vez, já chega de chalaça2.
Estou pronto3, e o dinheiro cabuloso4
É o meu maior fornecedor de graça.

Eis o meu derradeiro sonetinho;
Vou tratar de outro ofício mais rendoso:
Meus amáveis leitores, adeusinho...

Resultado de imagem para Lili Leitão

Notas de Luiz Antonio Barros:
1 Sofrivelmente: de modo sofrível, isto é, que não é bom, mas também não é inteiramente mau; passável, tolerável. (Lili Leitão)
2 Chalaça: dito ou gracejo de mau gosto, escárnio. (idem)
3 Pronto: sem dinheiro. (ibidem)
4 Cabuloso: azarento, importuno, antipático. (ibidem)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da ManhãO Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924), O rendez-vous amarelo (1930); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Brabas (edição reduzida) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.