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[traduzido por Jamil Almansur
Haddad]
Ardo tanto e, ai de mim! — quem acredita?
Se alguém me crê, só o duvida
aquela
Que entre outras damas é a mais
pura e bela,
Pois parece não ver o que me agita.
Tão pouca fé, beleza não finita,
Vê, nos olhos meu peito se revela,
Se não fosse tão dura minha
Estrela,
Acharia mercê tanta desdita.
Este meu grão ardor que pouco
estimas,
O teu alto louvor difuso em rimas
Mil pessoas no mundo inflamaria.
E vê meu pensamento ó doce chama,
Que o ouvido indiferente e a língua
fria
Terão por alto plectro eterna fama.
Lasso!, ch'i' ardo, et altri non mel
crede;
sí crede ogni uom, se non sola
colei
che sovr'ogni altra, et ch'i' sola vorrei:
ella non par che 'l creda, e sì sel
vede.
Infinita bellezza, e poca fede,
non vedete voi 'l cor, nelli occhi
mei?
Se non fusse mia stella, i' pur
devrei
al fonte di pietà trovar mercede.
Quest'arder mio, di che vi cal sì
poco,
e i vostri onori, in mie rime
diffusi,
ne porìan infiammar fors'ancor
mille;
ch'i' veggio nel penser, dolce mio
foco,
fredda una língua, e duo belli
occhi chiusi
rimaner, dopo noi, pien di faville.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação
de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio
de Janeiro — RJ; Francesco
Petrarca (1304 — 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai
do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência
de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita
e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte
de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos
acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere
'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' — poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' — diálogo
imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres'
— série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De
Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' — elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum
— coleção de doze poemas pastorais, Africa — épico, sobre o general romano Scipio
Africanus e muitos outros títulos.

