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sábado, 3 de outubro de 2026

Goethe: Uma donzela diz *


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[traduzido por Eugênio de Castro]

Amor, lembras-me, ao ver-te carrancudo,
O teu busto de pedra arrefecida:
Como este, não me dás sinal de vida;
E mais do que ele estás fechado e mudo.

Oculta-se o inimigo atrás do escudo,
O amigo deve andar de fronte erguida,
Foges de mim, que após ti vou, dorida;
Pára! Não anda o mármore sisudo.

Ah! para qual dos dois voltar-me devo?
A frieza dos dois hei de agüentar,
De ti que és vivo e dele sem alento?

Basta de queixas vãs! Em doce enlevo
Tão longamente a pedra vou beijar,
Que dela enfim me arrancarás ciumento!

Goethe

Das Mädchen spricht

Du siehst so ernst, Geliebter! Deinem Bilde
Von Marmor hier möcht’ ich dich wohl vergleichen;
Wie dieses, gibst du mir kein Lebenszeichen;
Mit dir verglichen, zeigt der Stein sich milde.

Der Feind verbirgt sich hinter seinem Schilde,
Der Freund soll offen seine Stirn uns reichen.
Ich suche dich, du suchst mir zu entweichen;
Doch halte stand, wie dieses Kunstgebilde.

An wen von beiden soll ich nun mich wenden?
Sollt’ ich von beiden Kälte leiden müssen,
Da dieser tot und du lebendig heißest?

Kurz, um der Worte mehr nicht zu verschwenden,
So will ich diesen Stein so lange küssen,
Bis eifersüchtig du mich ihm entreißest.

[1808]

* Nota do Organizador Samuel Pfromm Netto: Uma donzela diz (Das Mädchen spricht). Goethe tinha perto de 60 anos quando fez esta poesia.
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Goethe: Poesias escolhidas [múltiplos tradutores], Organização, Apresentação, Musicografia goetheana e Notas sobre poesias incluídas de Samuel Pfromm Netto e Biografia — A Vida de Goethe e Cronologia de Emil Schostal, 2005, 2ª edição, Editora Átomo e Edições PNA, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 — 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (1801—1803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 1811—1833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 1813—1817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

sábado, 29 de agosto de 2026

Johann Wolfgang von Goethe: Lenda da ferradura

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[traduzido por Alberto Ramos]

Quando ainda obscuro e desconhecido
Nosso Senhor andava na terra
muitos discípulos o seguiam
— Que raras vezes o compreendiam;
amava doutrinar as massas
nas ruas amplas e nas praças,
pois à face dos céus a gente
fala melhor e mais livremente.
Ali, dos seus divinos lábios
fluíam os ensinamentos mais sábios;
pela parábola e pelo exemplo
faziam de cada mercado um templo.
Certa vez quando, em paz e santidade,
chegava com os seus a uma cidade,
viu qualquer coisa luzir na estrada:
era uma ferradura quebrada.
Disse a São Pedro com brandura
— “Pedro, apanha essa ferradura!”
Porém São Pedro, no momento,
tinha ocupado o pensamento
e absorto em êxtase profundo
sonhava-se o dominador do mundo,
rei, papa, ou tal que se pareça.
Aquilo enchia-lhe a cabeça;
e havia de dobrar a espinha
por uma coisa tão mesquinha?
Se fosse um cetro, uma coroa,
mas uma ferradura à toa…
E foi seguindo, distraído,
como se não tivesse ouvido.
Curvou-se o Cristo, com doçura
celeste, angélica e humilde,
e ergueu do chão a ferradura;
e quando entraram na cidade
vendeu-a em casa de um ferreiro.
Comprou cerejas com o dinheiro,
guardando-as, à sua maneira,
na manga — em falta de algibeira.
Dali saíram por outra porta.
Fora a campanha estava morta;
nem flor nem sombra; ao longe, ao perto,
era o silêncio, era o deserto,
era a desolação; ardia,
torrava, o sol do meio-dia.
Que não valia em tal secura
um simples gole de água pura!
Nosso Senhor caminha à frente.
Deixa cair discretamente,
furtivamente, uma cereja
que Pedro apanha, salvo seja,
com cabriolas de maluco.
A frutinha era mesmo o suco.
Outra cereja no caminho
atira o Mestre de mansinho,
que Pedro apanha vorazmente.
E assim por diante, não uma vez somente,
fê-lo o Senhor dobrar a espinha
tantas vezes quantas cerejas tinha.
Durou a cena um bom pedaço.
Por fim, disse o Senhor com ar prazenteiro:
Pedro, se fosses mais ligeiro
não tinhas tido este cansaço.
Quem cedo e a tempo ao pouco não se obriga,
tarde por muito menos se fadiga.

Goethe

Legende [vom Hufeisen]

Als noch, verkannt und sehr gering,
Unser Herr auf der Erde ging,
Und viele Jünger sich zu ihm fanden,
Die sehr selten sein Wort verstanden,
Liebt‘ er sich gar über die Massen,
Seinen Hof zu halten auf der Strassen,
Weil unter des Himmels Angesicht
Man immer besser und freier spricht.
Er liess sie da die höchsten Lehren
Aus seinem heiligen Munde hören;
Besonders durch Gleichnis und Exempel
Macht‘ er einen jeden Markt zum Tempel.

So schlendert‘ er in Geistes Ruh‘
Mit ihnen einst einem Städtchen zu,
Sah etwas blinken auf der Strass‘,
Das ein zerbrochen Hufeisen was.
Er sagte zu Sankt Peter drauf:
“Heb doch einmal das Eisen auf!”
Sankt Peter war nicht aufgeräumt,
Er hatte soeben im Gehen geträumt,
So was vom Regiment der Welt,
Was einem jeden wohlgefällt:
Denn im Kopf hat das keine Schranken;
Das waren so seine liebsten Gedanken.
Nun war der Fund ihm viel zu klein,
Hätte müssen Kron‘ und Zepter sein;
Aber wie sollt‘ er seinen Rücken
Nach einem halben Hufeisen bücken?
Er also sich zur Seite kehrt
Und tut, als hätt‘ er ’s nicht gehört.

Der Herr nach seiner Langmut drauf
Hebt selber das Hufeisen auf
Und tut auch weiter nicht dergleichen.
Als sie nun bald die Stadt erreichen,
Geht er vor eines Schmiedes Tür,
Nimmt von dem Mann drei Pfenning dafür.
Und als sie über den Markt nun gehen,
Sieht er daselbst schöne Kirschen stehen,
Kauft ihrer, so wenig oder so viel,
Als man für einen Dreier geben will,
Die er sodann nach seiner Art
Ruhig im Ärmel aufbewahrt.

Nun ging’s zum andern Tor hinaus,
Durch Wies‘ und Felder ohne Haus;
Auch war der Weg von Bäumen bloss,
Die Sonne schien, die Hitz‘ war gross,
So dass man viel an solcher Stätt‘
Für einen Trunk Wasser gegeben hätt‘.
Der Herr geht immer voraus vor allen,
Lässt unversehens eine Kirsche fallen.
Sankt Peter war gleich dahinter her,
Als wenn es ein goldner Apfel wär‘;
Das Beerlein schmeckte seinem Gaum.
Der Herr nach einem kleinen Raum
Ein ander Kirschlein zur Erde schickt,
Wonach Sankt Peter schnell sich bückt.
So lässt der Herr ihn seinen Rücken
Gar vielmal nach den Kirschen bücken.
Das dauert eine ganze Zeit.
Dann sprach der Herr mit Heiterkeit:
“Tätst du zur rechten Zeit dich regen,
Hättst du’s bequemer haben mögen.
Wer geringe Ding‘ wenig acht’t,
Sich um geringere Mühe macht.“

[1797]
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985[?], Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 — 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (1801—1803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 1811—1833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 1813—1817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Goethe: A violeta

 
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[traduzido por Pedro de Almeida Moura]

Era uma vez uma violeta
Nascida numa campina,
Curvada sobre si mesma, ignorada,
Uma violeta sem par!
Veio vindo uma pastora
Linda, meiga, jovial,
De airoso passo e bom coração,
Veio vindo, veio vindo,
Contente, cantarolando...

— Ai, geme a flor, pobre de mim,
Pudesse eu ser,
A mais formosa flor do mundo,
Por um momento só!
Até que viesse o meu amor
E me colhesse e, assim colhida,
Junto ao seu peito me apertasse,
Por um momento apenas,
Por um momento só!

Veio a pastore e, desastrosa,
Não percebendo a humilde flor,
Aos pés calcou a pobrezinha.
Tombou, coitada, agonizante,
Mas, assim mesmo, se alegrava:
— Porque se morro espezinhada
Ainda assim vale morrer,
Ainda assim feliz sou eu
Calcada aos pés da bem amada.

Goethe

Das Veilchen

Ein Veilchen auf der Wiese stand,
Gebückt in sich und unbekannt,
Es war ein herzig’s Veilchen.
Da kam eine junge Schäferin
Mit leichtem Schritt und munterm Sinn
Daher, daher,
Die Wiese her, und sang.

Ach! denkt das Veilchen, wär’ ich nur
Die schönste Blume der Natur,
Ach! nur ein kleines Weilchen,
Bis mich das Liebchen abgepflückt
Und an dem Busen matt gedrückt!
Ach nur, ach nur
Ein Viertelstündchen lang!

Ach! aber ach! das Mädchen kam
Und nicht in acht das Veilchen nahm,
Ertrat’s das arme Veilchen.
Es sank und starb und freut sich noch:
Und sterb’ ich denn, so sterb ich doch
Durch sie, durch sie.
Zu ihren Füssen doch.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã [diversos autores e tradutores], Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, coleção Clássicos de Bolso nº 82128, 1985[?], Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 — 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (1801—1803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 1811—1833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 1813—1817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Goethe: A canção do Rei de Tule

 
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[traduzido por Antero de Quental]

Era uma vez um bom rei,
Em Tule — essa ilha distante.
Ao morrer, deixou-lhe a amante
Um copo de ouro de lei.

Era um copo de ouro fino,
Todo lavrado a primor;
Se fosse o cálix divino
Não lhe tinha mais amor.

Seus tristes olhos leais
Não tinham outra alegria:
E só por ele bebia,
Nos seus banquetes reais.

Chegada a hora da morte
Pôs-se o rei a meditar
Grandeza da sua sorte,
Seus reinos a beira-mar.

Deixava um rico tesouro,
Palácios, vilas, cidades;
De nada tinha saudades,
A não ser do copo de ouro.

No castelo da devesa,
Naquelas salas sem fim,
Mandou armar uma mesa
Para um último festim.

Convidou sem mais tardar
Os seus fiéis cavaleiros,
Para os brindes derradeiros
No castelo a beira-mar.

Então, vasando-a de um trago,
E com entranhada mágoa,
Pôs nas ondas o olhar vago
E atirou com a taça à água.

Viu a boiar suspendida,
Té que as ondas a levaram:
Os olhos se lhe toldaram,
E não bebeu mais na vida!

Johann Wolfgang von Goethe

Der König in Thule

Es war ein König in Thule,
Gar treu bis an das Grab,
Dem sterbend seine Buhle
Einen goldnen Becher gab.

Es ging ihm nichts darüber,
Er leert' ihn jeden Schmaus,
Die Augen gingen ihm über,
So oft er trank daraus.

Und als er kam zu sterben,
Zählt' er seine Städt' im Reich,
Gönnt' alles seinen Erben,
Den Becher nicht zugleich.

Er saß beim Königsmahle,
Die Ritter um ihn her,
Auf hohem Vätersaale,
Dort auf dem Schloß am Meer.

Dort stand der alte Zecher,
Trank letzte Lebensglut
Und warf den heil'gen Becher
Hinunter in die Flut.

Er sah ihn stürzen, trinken
Und sinken tief ins Meer.
Die Augen täten ihm sinken:
Trank nie einen Tropfen mehr.
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Clássicos Jackson, Volume XXXVIII — Poesia, 1º. Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1964, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 — 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, iniciou sua formação em Direito pela universidade de Leipzig e concluindo-a em Strassburg, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; em casa, aprendeu as primeiras letras com o pai [consta ter aprendido italiano, estudado latim, grego e história “ainda menino”]; Goethe realizou seus primeiros poemas (canções e odes) ainda jovem; suas obras: Die Laune des Verliebten (peça pastoral em versos, 1768), Götz von Berlinchingen (drama histórico em 5 atos, 1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, romance, 1774), Clavigo (tragédia em 5 atos, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Römische Elegien (Elegias Romanas, 24 poemas, 1788-1’790), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (Der Zauberlehrling, balada, 1797), Hermann e Dorothea (poema épico, 1798), Die natürliche Tochter (drama em verso, 1801—1803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (Wilhelm Meisters Wanderjahre, romance, 1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 1811—1833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 1813—1817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, coleção de poemas, 1819, e versão ampliada em 1827), Gedichte (Poesias: baladas, lieder, sonetos, etc.); Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

sábado, 23 de maio de 2026

Goethe: Amável

 
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[traduzido por Daniel Martineschen]

Onde a cor que me apega
firmamento com a altura?
Bruma matutina cega
no meu olho a vista pura.

São as tendas do vizir
que ele fez a suas queridas?
São tapetes desta festa
porque se uniu à preferida?

Rubro e branco, misturados,
nada vi tão belo assim;
pode o teu Xiraz, Hafez,
vir ao norte triste, enfim?

Sim, é o colorido ópio
que se estende à vizinhança,
e causando em Marte opróbrio,
cobre os campos com pujança.

Que o sabão ainda cultive
flores lindas de uma renda,
e como hoje, o sol se altive
e as clareie em minha senda!

(Divã Ocidento-Oriental —
Livro do Cantor)

Goethe

Liebliches

Was doch Buntes dort verbindet
Mir den Himmel mit der Höhe?
Morgennebelung verblindet
Mir des Blickes scharfe Sehe.

Sind es Zelte des Wesires,
Die er lieben Frauen baute?
Sind es Teppiche des Festes,
Weil er sich der Liebsten traute?

Rot und weiß, gemischt, gesprenkelt,
Wüßt ich Schönres nicht zu schauen;
Doch wie Hafis kommt dein Schiras
Auf des Nordens trübe Gauen?

Ja, es sind die bunten Mohne,
Die sich nachbarlich erstrecken
Und, dem Kriegesgott zum Hohne,
Felder streifweis freundlich decken.

Möge stets so der Gescheute
Nutzend Blumenzierde pflegen
Und ein Sonnenschein, wie heute,
Klären sie auf meinen Wegen!

(West-östlicher Divan —
Moganni Nameh: Buch des Sängers)
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Goethe: Divã Ocidento-Oriental, bilíngue [+ Notas e Ensaios para melhor compreensão do Divã Ocidento-Oriental], Tradução e Posfácio de Daniel Martineschen e Apresentação de Marcus Mazzari, 1ª edição, 2020, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 — 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (1801—1803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 1811—1833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 1813—1817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

Goethe: Quietude no Oceano

 
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[traduzido por Ary de Mesquita]

Um silêncio desceu, profundo, sobre as águas,
E sem arfar sequer repousa o velho mar;
Entanto o pescador, a ruminar as mágoas,
Volve lasso, em redor, os olhos devagar.
Não há nenhum rumor por mais sutil e brando,
Não há no mar ou no ar vagas nem viração...
— Só existe o silêncio imenso amortalhando
A impassível aquosa e límpida amplidão.

Johann Wolfgang von Goethe

Meeres Stille

Tiefe Stille herrscht im Wasser,
Ohne Regung ruht das Meer,
Und bekümmert sieht der Schiffer
Glatte Fläche ringsumher.
Keine Luft von keiner Seite!
Todesstille fürchterlich!
In der ungeheuern Weite
Reget keine Welle sich.

[Gedichte — Erster Band]
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Clássicos Jackson, Volume XXXVIII — Poesia, 1º. Volume — [vários autores e tradutores], Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1964, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 — 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, iniciou sua formação em Direito pela universidade de Leipzig e a concluiu em Strassburg, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; em casa, aprendeu as primeiras letras com o pai [consta ter aprendido italiano, estudado latim, grego e história “ainda menino”]; Goethe realizou seus primeiros poemas (canções e odes) ainda jovem; suas obras: Die Laune des Verliebten (peça pastoral em versos, 1768), Götz von Berlinchingen (drama histórico em 5 atos, 1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, romance, 1774), Clavigo (tragédia em 5 atos, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Römische Elegien (Elegias Romanas, 24 poemas, 1788-1’790), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (Der Zauberlehrling, balada, 1797), Hermann e Dorothea (poema épico, 1798), Die natürliche Tochter (drama em verso, 1801—1803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (romance, 1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 1811—1833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 1813—1817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, coleção de poemas, 1819, e versão ampliada em 1827), Gedichte (Poesias: baladas, lieder, sonetos, etc.); Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

sábado, 9 de maio de 2026

Goethe: Confissão


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[traduzido por Daniel Martineschen]

O que é ruim de esconder? O fogo!
Se ao dia a fumaça o trai
à noite a chama o monstro, o ogro.
Difícil de esconder ainda mais,
O amor: guardado em cura calma,
pula ágil pra fora da alma.
O pior mesmo é esconder um poema:
pois cobri-lo dá o maior problema.
Se o poeta o recém-cantou,
de poesia se encharcou;
se o poeta o escreveu com classe,
quer que todo o mundo o abrace.
A todos lê, alegre e forte.
Azar de nós — ou será sorte?

(Divã Ocidento-Oriental —
Livro do Cantor)

Goethe

Geständniss

Was ist schwer zu verbergen? Das Feuer!
Denn bei Tage verrät’s der Rauch,
Bei Nacht die Flamme, das Ungeheuer.
Ferner ist schwer zu verbergen auch
Die Liebe; noch so stille gehegt,
Sie doch gar leicht aus den Augen schlägt.
Am schwersten zu bergen ist ein Gedicht;
Man stellt es untern Scheffel nicht.
Hat es der Dichter frisch gesungen,
So ist er ganz davon durchdrungen.
Hat er es zierlich nett geschrieben,
Will er, die ganze Welt soll’s lieben.
Er liest es jedem froh und laut,
Ob es uns quält, ob es erbaut.

(West-östlicher Divan —
Moganni Nameh: Buch des Sängers)
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Goethe: Divã Ocidento-Oriental, bilíngue [+ Notas e Ensaios para melhor compreensão do Divã Ocidento-Oriental], Tradução e Posfácio de Daniel Martineschen e Apresentação de Marcus Mazzari, 1ª edição, 2020, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 — 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (1801—1803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 1811—1833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 1813—1817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...