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Queima-campo, entre os caipiras, é o indivíduo que, a propósito de tudo, e até fora de propósito, tem um causo pra contar, uma mentira engatilhada. A origem é o causo de um indivíduo que, após a descrição de um incêndio de mata, em que o fogo pulou um rio e começou a queimar um campo, o contador deixou a coisa nesse pé e pegou uma variante, descambando pra outros causos, noutros terrenos, noutros assuntos...
Cada vez que o interrompiam, perguntando pelo fogo, e ai? e o fogo?..., ele respondia que o campo estava queimando, e assim varava a tarde, a noite, e, já noutro dia, o campo estava queimando...
Pra ele, o fogo nunca tinha sido cercado, e o campo está queimando...
O mentiroso, além do nome de Queima-campo, também recebe o de Joaquim Bentinho, o Queima-campo.
O causo de hoje é...
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...De como o Queima-campo não morreu à míngua, vivendo sozinho no sítio, atacado de maleita, bexiga e febre-amarela, ao mesmo tempo.(*)
E ainda tô vivo!
Pa vancê vê... Quano Deus qué, inté o cadáve de um defunto revive, e perobêra é capaiz de dá bacaxi...
Eu moro sozinho no sítio, ua capuava na vórta do riu, na invernada, lugá que, im certos ano, dá maleite in tudo!
Vancê vê... ali po meio dia, a cachorrada garra reuní perto do fogo, tudo ripiado, i garra a tremê... É maleite!
Vancê vai no terrêro, chega perto do chiquêro, vê a porcada tudo muntuada um im riba dôtro, gemeno qui nem gente... É maleite!
Vancê ôve de repente, uma búia de ramaiada chacuaiano no mato, vancê cuida que é caça, u é o vento... vai vê... são as árve que tão tremeno... É maleite! Inté ninho de passarinho cai do gaio!
Tudo sofre maleite! Cumé que eu havéra descapá?
Um dia, eu tava borrecido da vida, sentado no terrêro, na pedra de afiá... A bixiga tava pipocano na vila, e a febre marela tava lavrano nua tuada... Eu já num tinha mais mantimento im casa...
Í na vila? Nããão!
De repente, oiei no ar, anssi... vinha dois bichinho... isturdio..., avuano i brigano... viéro... viéro vino..., viéro vino...e eu, feito bocó, num corri...
Viéro brigano, brigano e... craaan!... Fincaro o ferrão no meu pescoço... poco abaxo do Adão!
Matei os tár!
Vancê sabe o que eram?
Dois micróbe, moço! Dois micróbão, dos ligite!
Um, era bem marelo, verde no incontro das asa, barriga piluda, listrada... co as unha vortiada... Ôtro, era da cor da mardáde, co a cacunda tudo pipocado...
Digo, tô morto! Já num chegava os arripiu que eu tava sintino... da sezão...
Agora, tava pronto... Fanhoso i sem nariz...
Fui pa drento..., ponhei áua ferveno na bacia..., cinza... limão..., ua foia de párma benta..., um pôco de alecrim..., um raminho de arruda.... Tomei um escarda-pé... e se deitei...
Tive um febrão... i gumitei preto.
No amiudá dos galo, garrei oví um baruião fóra de perpósito...
Principiô como barúio de rebentação de pipoca im caçarola tampado cum texto. Despois, paricia queimada de capuêra onde tem taquará... Despois, asvoroçô... i paricia baruio de mír carrêra de traque rebentano drento de úa lata... Pro fim, já paricia bataria de festa do Divino...
Ôôôô... pos quinto! Era a bixiga que tava rebentano...!
Fiquei quéto na cama...
O que me valeu, foi que antes de se deitá, ponhei um póte dáua perto da cabecêra...
Tive seeete sumana deitado... sem tê quem me fizesse um cardo... Talequá!
I num morri de fome... Inté ingordei...
Impussíve? Parece... mais num é...
Eu iê conto... Eu tenho uas galinhada... cumo num hai ôtra... é uma raça de galinha muito inteligente... das ladina... Vancê sabe que, morde as pena, os micróbe num pega nas galinha... E inté a galinhada faiz razôra neles...
Do meu quarto, saia aqueles inxame de micróbe, que nem bando de gafanhoto... a galinhada avançava nos tár, inchia o papo... e num achava farta no mio...
Que jeito tinha os micróbe? Tinha de uns que nem gafanhoto, sem asa, sartão, erum fióte, cum cara de cavalinho de Nosso Sinhô... boca de gente e um zóio só... bem no meio da testa..., esse reganhadinho era o tár da febre marela... Tinha ôtros, que nem manguizó, esse bichinho que nem éroplano, que véve avuano im riba das poça dáua, chamado, co perdão da má palavra, de lava-bunda..., é os da maleite... E tinha uns isturdio, mistiço de barata cum pirnilongo, pampa na barriga e maiado na cacunda, que nem sapo..., é os da bixiga...
Cumé que eu se alimentava? Já vai vê... eu tava sozinho im casa... Defunto Fidêncio póde contá pa vancê... se num aquerditá... Ele ia me vê tudo dia...
O que é que eu cumia? Ah... galinhada ladina e de bão coração é as que eu tenho...
As galinha, na hora de ponhá ovo, vinha úa, devagazinho, pa num mincomodá, trepava nos pé da cama, aninhava im riba das cuberta, botava o ovo e saía, disfarçano, e só no chegá no terrêro é que garrava gritá... Já ponhei! Já ponhei! Vinha ôtra e ôtra... e, anssi, era tudo dia dúzia e meia.
Bebia os ovos cru? Não! ... Tava cua febre tão árta, que ponhava um ovo im baxo de cada suvaco e, um minuto, bebia ovo quente... dois minuto... cumia ovo cuzido...
Cês num tão aquerditano? Ah... vão cumê furmiga!!!
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Musa Caipira — As estrambóticas
aventuras do Joaquim Bentinho (o Queima-campo), edição comemorativa do
centenário do nascimento de Cornélio Pires, editado pela Prefeitura
Municipal de Tietê — SP; Cornélio Pires (1884 — 1958), paulista
de Tietê, autodidata, foi jornalista, escritor, folclorista, etnógrafo,
ativista cultural, conferencista, poeta, contador de causos e cantador, enfim,
um estudioso da cultura e dialeto caipiras; teve sua estréia na imprensa como
aprendiz de tipógrafo em O Tietê (1905); trabalhou e/ou
colaborou com os jornais O Comércio de São Paulo, O Estado de São
Paulo, A Cidade de Santos, e também com as revistas O Pirralho, dirigida por Oswald de Andrade, A Careta, do Rio de Janeiro, A Farpa, de
São Paulo, além de em outras publicações; dirigiu o hebdomadário O
Movimento, de São Manuel — SP; em Piracicaba, colaborou com O
Jornal e Jornal de Piracicaba; fundou com o caricaturista e
desenhista Voltolino, o semanário humorístico O Sacy (1926); em 1909 teve
suas poesias publicadas no Almanaque d’O Malho; escreveu e publicou Musa
Caipira (1910), O Monturo (poemetos, 1911), Versos (1912), Tragédia
Cabocla (novela, 1914), Quem conta um conto... (1916), Conversas
ao Pé do Fogo (1921), Cenas e Paisagens da minha terra (reunião de sua
obra poética, 1921), As Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho — o
Queima-Campo (1924), Seleta Caipira (1926), Continuação das
Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho — o Queima-Campo (1929), Sambas
e Cateretês (folclore, 1932), Tá no Bocó (1935) e outros;
realizou os filmes Brasil Pitoresco (com auxílio técnico do cineasta
paulista Flamínio de Campos Gatti, 1923) e Vamos passear? (documentário,
1934); o ativista cultural Cornélio Pires viajou pelo país afora
divulgando e apresentando o que pesquisava, também produziu e deixou registrado
seus causos e outros achados caipiras (modas de viola, anedotas, cururus
e outros ritmos caipiras...) em dezenas de discos gravados nos anos 29 e
30 com duplas caipiras e artistas por ele descobertos.
(*) Genésio dos Santos, itapetiningano e paulista, caipira, poeta e cronista, cometeu pequeníssima impropriedade com este texto: adaptou-o aqui e ali, em doses minúsculas, e o transformou num monólogo para teatro.