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segunda-feira, 4 de abril de 2022

Luís Carlos: Vozes do Além

 
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Vozes vagas do Além; vozes perdidas,
Como sombras sonoras, que se vão
De tantos mundos e de tantas vidas,
Surdamente, a rolar pela Amplidão...

Vozes feitas de eternas despedidas;
“Nunca Mais”... “nunca mais”; vozes que são
Remotas vibrações indefinidas,
Afundando o silêncio e a solidão.

Quem há, como eu, que as ouça, tão de perto?
Quem há, se é de as ouvir, de forma tal
Que o meu destino é um trágico deserto?!

Ninguém. Porque elas são, só por meu mal,
Os ecos de minh’alma, que, decerto,
Se fez algum adeus universal.

(Amplidão  poesias, edição póstuma, 1933)

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Luís Carlos — Série Essencial 72, Academia Brasileira de Letras, Organização, Apresentação e Notas de Augusto Sérgio Bastos, 2013, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (1880 1932), nascido no Rio de Janeiro RJ, formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; exerceu a profissão de engenheiro na Estrada de Ferro Central do Brasil e foi nomeado consultor técnico do Ministério da Viação, sem nunca ter deixado de escrever; publicou seus versos em jornais e revistas cariocas, entre os quais Fon Fon, Para Todos e Careta; há críticos literários que o classificam como pertencente à última geração dos parnasianos; reunido a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924), Rosal de Ritmos (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924), Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Luís Carlos: Substractum*

 
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Formoso ideal com que a sonhar me iludo
Fraternidade humana, vã doutrina!
O homem só por si próprio se fascina:
Narciso eterno , eis seu mistério rudo.

O beijo, o abraço, o adeus, o aplauso... tudo
O que oferece, quando raciocina,
São só disfarces da feição genuína
Do seu caráter cego, surdo, mudo!

Amizade, respeito, simpatia,
Misericórdia, amor, saudade, ciúme.
Tudo acaba, se o egoísmo principia.

E o homem, vivendo entre outros homens, a esmo,
Vê que a vida, afinal, se lhe resume
No profundo deserto de si mesmo!


* Nota do Organizador Augusto Sérgio Bastos: In: Colunas, 1ª edição. Rio de Janeiro: Edição de Jacinto Ribeiro dos Santos, 1920, p. 99.
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Luís Carlos — Série Essencial 72, Academia Brasileira de Letras, Organização, Apresentação e Notas de Augusto Sérgio Bastos, 2013, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (1880 1932), nascido no Rio de Janeiro RJ, formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; exerceu a profissão de engenheiro na Estrada de Ferro Central do Brasil e foi nomeado consultor técnico do Ministério da Viação, sem nunca ter deixado de escrever; publicou seus versos em jornais e revistas cariocas, entre os quais Fon Fon, Para Todos e Careta; há críticos literários que o classificam como pertencente à última geração dos parnasianos; reunido a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924), Rosal de Ritmos (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924), Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Luís Carlos: O Poeta*

 
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Ninguém saiba quem sou. Quero viver sepulto
Na minha solidão grandíloqua de asceta,
Preferindo aos clarões do mundo a luz secreta,
Que aclara, quando é sonho, e abrasa, quando é culto.

Perpasse eu pela vida aparentando um vulto
Envolto no pudor, como visão discreta.
Mas que surja, por fim, transfigurado em poeta,
Da crisálida azul em que o meu ser oculto.

E, através da efusão fecundante do dia,
Suba àquelas regiões, de onde os sóis não se somem,
No equilíbrio imortal da suprema harmonia.

E fique no esplendor que as eras não consomem,
Provando, pela glória estranha da poesia,
Como pode caber um deus dentro de um homem!


* Nota do Organizador Augusto Sérgio Bastos: In: Colunas, 1ª edição. Rio de Janeiro: Edição de Jacinto Ribeiro dos Santos, 1920, p. 82.
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Luís Carlos — Série Essencial 72, Academia Brasileira de Letras, Organização, Apresentação e Notas de Augusto Sérgio Bastos, 2013, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (1880 1932), nascido no Rio de Janeiro RJ, formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; exerceu a profissão de engenheiro na Estrada de Ferro Central do Brasil e foi nomeado consultor técnico do Ministério da Viação, sem nunca ter deixado de escrever; publicou seus versos em jornais e revistas cariocas, entre os quais Fon Fon, Para Todos e Careta; há críticos literários que o classificam como pertencente à última geração dos parnasianos; reunido a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; suas obras: Colunas (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924), Rosal de Ritmos (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924), Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

domingo, 7 de julho de 2019

Raimundo Correia: Saudade

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Aqui outrora retumbaram hinos;
Muito coche real nestas calçadas
E nestas praças, hoje abandonadas,
Rodou por entre os ouropéis mais finos...

Arcos de flores, fachos purpurinos,
Trons festivais, bandeiras desfraldadas,
Girândolas, clarins, atropeladas
Legiões de povo, bimbalhar de sinos...

Tudo passou! Mas dessas arcarias
Negras, e desses torreões medonhos,
Alguém se assenta sobre as lájeas frias;

E em torno os olhos úmidos, tristonhos,
Espraia, e chora, como Jeremias,
Sobre a Jerusalém de tantos sonhos!...

(Poema de Versos e Versões — 1887. Poesia Completa e Prosa
1961, Rio de Janeiro: José Aguilar, pp. 196—197.)

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Raimundo Correia — Série Essencial 22, Academia Brasileira de Letras, Organização de Augusto Sérgio Bastos, 2010, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Raimundo da Mota de Azevedo Correia (1859  1911), maranhense nascido nas costas litorâneas do Maranhão (em um navio ali ancorado), formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual Direito USP), foi juiz e poeta; escreveu e publicou Primeiros Sonhos (1879), Sinfonias (1883), Versos e Versões (1887), Aleluias (1891), Poesias (1898); em sua carreira poética foi influenciado fortemente pelos românticos Fagundes Varela, Casimiro de Abreu e Castro Alves e, a partir de 1883, com a edição de Sinfonias, assumiu o parnasianismo e passou a formar, juntamente com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, a literariamente cultuada "Tríade Parnasiana"; morreu em Paris, para onde fora tratar da saúde.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Raimundo Correia: Banzo

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Visões que n’alma o céu do exílio incuba,
Mortais visões! Fuzila o azul infando...
Coleia, basilisco de ouro, ondeando
O Níger... Bramem leões de fulva juba...

Uivam chacais... Ressoa a fera tuba
Dos cafres, pelas grotas retumbando,
E a estrelada das árvores, que um bando
De paquidermes colossais derruba...

Como o guaraz nas rubras penhas dorme,
Dorme em nimbos de sangue o sol oculto...
Fuma o saibro africano incandescente...

Vai com a sombra crescendo o vulto enorme
Do baobá... E cresce n’alma o vulto
De uma tristeza, imensa, imensamente...

(Poema de Aleluias — 1891. Poesia Completa e Prosa
1961, Rio de Janeiro: José Aguilar, p. 295.)

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Raimundo Correia — Série Essencial 22, Academia Brasileira de Letras, Organização de Augusto Sérgio Bastos, 2010, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Raimundo da Mota de Azevedo Correia (1859  1911), maranhense nascido nas costas litorâneas do Maranhão (em um navio ali ancorado), formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual Direito  USP), foi juiz e poeta; escreveu e publicou Primeiros Sonhos (1879), Sinfonias (1883), Versos e Versões (1887), Aleluias (1891), Poesias (1898); em sua carreira poética foi influenciado fortemente pelos românticos Fagundes Varela, Casimiro de Abreu e Castro Alves e, a partir de 1883, com a edição de Sinfonias, assumiu o parnasianismo e passou a formar, juntamente com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, a literariamente cultuada "Tríade Parnasiana"; morreu em Paris, para onde fora tratar da saúde.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Raimundo Correia: Anoitecer

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A Adelino Fontoura

Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol... Aves em bandos destacados,
Por céus de oiro e de púrpura raiados,
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...

Delineiam-se, além, da serrania
Os vértices de chama aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia.

Um mundo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra à proporção que a luz recua...

A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitece.

(Poema de Sinfonias — 1883. Poesia Completa e Prosa —
1961, Rio de Janeiro: José Aguilar, pp. 126—127.)

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Raimundo Correia — Série Essencial 22, Academia Brasileira de Letras, Organização de Augusto Sérgio Bastos, 2010, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Raimundo da Mota de Azevedo Correia (1859  1911), maranhense nascido nas costas litorâneas do Maranhão (em um navio ali ancorado), formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual Direito — USP), foi juiz e poeta; escreveu e publicou Primeiros Sonhos (1879), Sinfonias (1883), Versos e Versões (1887), Aleluias (1891), Poesias (1898); em sua carreira poética foi influenciado fortemente pelos românticos Fagundes Varela, Casimiro de Abreu e Castro Alves e, a partir de 1883, com a edição de Sinfonias, assumiu o parnasianismo e passou a formar, juntamente com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, a literariamente cultuada "Tríade Parnasiana"; morreu em Paris, para onde fora tratar da saúde.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Raimundo Correia: O Vinho de Hebe

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Quando do Olimpo nos festins surgia
Hebe risonha, os deuses majestosos
Os copos estendiam-lhe, ruidosos,
E ela, passando, os copos lhes enchia...

A Mocidade, assim, na rubra orgia
Da vida, alegre e pródiga de gozos,
Passa por nós, e nós também, sequiosos,
Nossa taça estendemos-lhe, vazia...

E o vinho do prazer em nossa taça
Verte-nos ela, verte-nos e passa...
Passa, e não torna atrás o seu caminho.

Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios,
Restam apenas tímidos ressábios,
Como recordações daquele vinho.

(Poema de Sinfonias — 1883. Poesia Completa e Prosa
1961, Rio de Janeiro: José Aguilar, p. 143.)

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Raimundo Correia — Série Essencial 22, Academia Brasileira de Letras, Organização de Augusto Sérgio Bastos, 2010, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Raimundo da Mota de Azevedo Correia (1859  1911), maranhense nascido nas costas litorâneas do Maranhão (em um navio ali ancorado), formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual Direito  USP), foi juiz e poeta; escreveu e publicou Primeiros Sonhos (1879), Sinfonias (1883), Versos e Versões (1887), Aleluias (1891), Poesias (1898); em sua carreira poética foi influenciado fortemente pelos românticos Fagundes Varela, Casimiro de Abreu e Castro Alves e, a partir de 1883, com a edição de Sinfonias, assumiu o parnasianismo e passou a formar, juntamente com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, a literariamente cultuada "Tríade Parnasiana"; morreu em Paris, para onde fora tratar da saúde.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Luís Carlos: Inquietação

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Desassossego do meu ser humano!
Mórbida exaltação dos meus sentidos
Que me estende a sem-fins desconhecidos
Com profundo sabor de abismo e arcano!

Pesa o Universo em mim como um tirano:
No olhar, cabem-me os Céus indefinidos;
Nas conchas univalves dos ouvidos,
As sinfonias trágicas do Oceano.

Quem sou, no meu conspecto diminuto,
Para encerrar esse desígnio imenso,
De ver e ouvir a essência do absoluto?

Nesta interrogação vivo suspenso,
Sofrendo já, pelo que vejo e escuto,
Sofrendo, muito mais, pelo que penso.

Astros e Abismos  1924, 1ª edição.
Rio de Janeiro: Empresa Brasil Editora, pp. 3233.

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Luís Carlos — Série Essencial 72, Academia Brasileira de Letras, Organização, Apresentação e Notas de Augusto Sérgio Bastos, 2013, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros  (1880  1932), nascido no Rio de Janeiro RJ,  formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; exerceu a profissão de engenheiro na Estrada de Ferro Central do Brasil e foi nomeado consultor técnico do Ministério da Viação, sem nunca ter deixado de escrever; publicou seus versos em jornais e revistas cariocas, entre os quais Fon Fon, Para Todos e Careta; há críticos literários que o classificam como pertencente à última geração dos parnasianos; reunido a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas  (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924),  Rosal de Ritmos  (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924),  Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.