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domingo, 22 de junho de 2014

Nunes da Silva: A Pedra do Caminho

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"Dessas pedras, lá fora, onde eu nasci, deitada
Uma autera se via à margem erma da estrada"
Alberto de Oliveira

Encontrei uma pedra no caminho...
Naquele tempo eu era ainda criança
E me aprazia o meu brincar sozinho;
Sair pelas estradas de rodagem
A correr e a saltar sobre a folhagem
 Cúpula verde alçada no caminho.

Tinha a pedra, talvez, a minha altura.
De rígido granito e cor escura.
Parecia fitar o célio ambiente
Com aquele olhar extático de um crente.
 Pedra, serei feliz?  disse-lhe um dia.
E, não obstante o musgo que a vestia,
Fácil me foi por entre os laivos brancos
Ler a resposta: sempre, num dos flancos.

De tudo quanto em minha vida ouvira,
Foi a primeira e pérfida mentira.

Anos depois, em plena juventude,
Encontrei outra pedra no caminho.

Era um musgoso bloco de minério
De um róseo-morto, esquálido e cinéreo.
Sempre constante em meu passear sozinho,
A manso e manso aproximei-me dela
A ver se alguma coisa me revela.
 Pedra, serei feliz?  disse-lhe um dia;
E, não obstante o musgo que a vestia
Fácil me foi por entre os laivos brancos
Ler a resposta: ainda, num dos flancos.

De tudo quanto em minha vida ouvira
Foi a segunda e pérfida mentira.

Por fim, chegando às portas da velhice,
Encontrei uma pedra no caminho.

Já estava afeito ao meu viver sozinho.
Era negra, espectral e, ali caída,
Também de velho musgo era vestida.
Ao me lembrar das outras que encontrara
A cada uma das quais eu perguntara
Se seria feliz e me mentira,
Porque jamais felicidade eu vira,
 Pedra, serei feliz?  disse-lhe um dia.
E, não obstante o musgo que a vestia,
Fácil me foi por entre os laivos brancos
Ler a resposta: nunca, num dos flancos.

E uma tristeza o coração me invade...
De tudo quanto em minha vida ouvira
Fora a primeira e a única verdade.

Brazilian writer and lawyer. Nasceu em Cantagalo/RJ no dia 09 de março de 1874. Advogado, professor, teatrólogo, romancista. Foi membro da Academia Fluminense de Letras. Residia no Rio e Janeiro, onde faleceu, em 18 de setembro de 1964. Bibliog. - Opalas, 1894; Sonhar desfeito, 1909; Trevos, 1910.
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Antologia de Poetas Fluminenses — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Artur Nunes da Silva (1874 1964), fluminense de Cantagalo, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo, atual USP  Largo São Francisco, foi advogado, professor, teatrólogo, romancista; em poemas, publicou Opalas (1894), Sonhar Desfeito (1909), Trevos (1910), Alma Secreta (1914), Rosa do Céu (1916), Calvário em Flor (1916), Amarelas (1923), Esmeraldas (1943), Canto do Deserto (1949), Urzes do Caminho (1952), O Cair das Folhas, poesias completas (1956); também produziu peças teatrais e foi o autor do Hino oficial de sua cidade natal, Cantagalo.