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[traduzido por Marcelo Lotufo]
Sob minhas pálpebras se abriu outro
olho
ele encara nuamente
a luz
que satura vinda do mundo da dor
mesmo quando durmo
Fixo, o olho observa
tudo aquilo pelo que estou passando
e mais
vê os porretes e as coronhas
subindo e caindo
vê
detalhe ausente na TV
os dedos da mulhar policial
vasculhando a buceta da jovem
prostituta
vê
as baratas caírem na panela
onde as bistecas são cozidas
na Casa de D
vê
a violência
incrustrada no silêncio
Esse olho
não é para chorar
a sua visão
precisa ser límpida
embora haja lágrimas no meu rosto
sua intenção é a clareza
não pode esquecer
nada
Setembro de 1971
From the Prison House
Underneath my lids another eye has
opened
it looks nakedly
at the light
that soaks in from the world of
pain
even when i sleep
Steadily it regards
everything i am going through
and more
it sees the clubs and rifles-butts
rising and falling
it sees
detail not on TV
the fingers of the policewoman
searching the cunt of the young
prostitute
it sees
the roaches dropping into the pan
where they cook the pork
in the House of D
it sees
the violence
embedded in silence
This eye
is not for weeping
its vision
must be unblurred
though tears are on my face
its intent is clarity
it must forget
nothing
September 1971
(Diving into the Wreck: Poems 1971-1972
— 1973)
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Que tempos são estes e outros poemas — edição bilíngue: Adrienne Rich, Organização e
Tradução de Marcelo Lotufo, 2018, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Adrienne Celine Rich (1929 — 2012), estadunidense de Baltimore — Maryland, estudou no Radcliffe College — bacharelou-se em Artes, foi
poeta, escritora de não-ficção, ensaísta, feminista e professora; desde a
infância, a poeta tomara gosto pela literatura através da biblioteca de seu pai
e incentivador nos estudos [leu Ibsen,
Arnold, Blake, Keats, Dante Gabriel Rossetti, Tennyson e outros]; a
partir de 1966, morando em Nova Iorque, “Rich envolveu-se com a Nova Esquerda e tornou-se profundamente ativa no ativismo
contra a guerra [do Vietnã], pelos direitos civis e pelo feminismo.”; como
professora, lecionou em muitas instituições: Swarthmore College, Columbia University School of the Arts, City College of New York, Brandeis
University, Stanford University e várias outras; suas obras: A
Change of World (poesias, Uma Mudança de Mundo, 1951), The Diamond Cutters, and
Other Poems (Os Lapidadores de Diamantes e Outros Poemas, 1955), Snapshots of a daughter in-law: poems,
1954-1962 (Instantâneos de uma nora: poemas, 1954-1962, 1963), Necessities
of life: poems, 1962-1965 (Necessidades da vida: poemas 1962-1965, 1966), The Will
to Change: Poems 1968-1970 (A Vontade de Mudar: Poemas 1968-1970, 1971), Diving
into the Wreck: Poems 1971-1972 (Mergulhando no Naufrágio: poemas 1971-1972, 1973),
Of Woman Born: Motherhood as Experience
and Institution (De Mulher Nascida: A Maternidade como Experiência e
Instituição, 1976), On Lies, Secrets and Silence Selected Prose, 1966-1978
(Sobre Mentiras, Segredos e Silêncio: prosa selecionada, 1966-1978, 1979), Blood,
Bread, and Poetry: Selected Prose, 1979–1985 (Sangue, Pão e Poesia: prosa
selecionada, 1986), What Is Found There: Notebooks on Poetry and Politics (O que
se encontra lá: Cadernos sobre poesia e política, 1993), Dark Fields of the
Republic: Poems, 1991-1995 (Campos Escuros da República: Poemas, 1991-1995,
1995), Adrienne Rich — Collected
Poems, 1950-2012 (2016) e muitos outros títulos em verso e prosa; a poeta,
ensaísta e ativista do feminismo, que enviuvara no início dos anos 70, em 1976
iniciou sua “parceria homossexual com a romancista e editora jamaicana Michelle
Cliff”, que durou até 27 de março de 2012 [data da morte de Adrienne Rich];
premiações e honrarias: Yale Younger Poets Award (Prêmio Yale para Jovens
Poetas, pela obra A Change of World, 1950), Lenore Marshall Poetry Prize (Prêmio Lenore Marshall de Poesia, 1992), Wallace
Stevens Award (Prêmio Wallace Stevens 1996) etc.; Rich foi a única pessoa a
recusar a National Medal of Arts
(Medalha Nacional das Artes, 1997), “a mais alta honraria do governo
‘estadunidense’ para artistas” oferecida a ela pelo então presidente Bill
Clinton, com a justificativa de que não podia ser hipócrita e aceitar prêmio
oferecido pelos mesmos “poderosos que fazem da arte uma refém do poder e do
dinheiro”.