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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Adrienne Rich: Da Casa de Detenção

 
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[traduzido por Marcelo Lotufo]

Sob minhas pálpebras se abriu outro olho
ele encara nuamente
a luz

que satura vinda do mundo da dor
mesmo quando durmo

Fixo, o olho observa
tudo aquilo pelo que estou passando

e mais

vê os porretes e as coronhas
subindo e caindo

detalhe ausente na TV

os dedos da mulhar policial
vasculhando a buceta da jovem prostituta

as baratas caírem na panela
onde as bistecas são cozidas
na Casa de D

a violência
incrustrada no silêncio

Esse olho
não é para chorar
a sua visão
precisa ser límpida

embora haja lágrimas no meu rosto

sua intenção é a clareza
não pode esquecer
nada

Setembro de 1971

Adrienne Rich

From the Prison House

Underneath my lids another eye has opened
it looks nakedly
at the light

that soaks in from the world of pain
even when i sleep

Steadily it regards
everything i am going through

and more

it sees the clubs and rifles-butts
rising and falling
it sees

detail not on TV

the fingers of the policewoman
searching the cunt of the young prostitute
it sees

the roaches dropping into the pan
where they cook the pork
in the House of D

it sees
the violence
embedded in silence

This eye
is not for weeping
its vision
must be unblurred

though tears are on my face

its intent is clarity
it must forget
nothing

September 1971

(Diving into the Wreck: Poems 1971-1972 — 1973)
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Que tempos são estes e outros poemas — edição bilíngue: Adrienne Rich, Organização e Tradução de Marcelo Lotufo, 2018, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Adrienne Celine Rich (1929 2012), estadunidense de Baltimore Maryland, estudou no Radcliffe College bacharelou-se em Artes, foi poeta, escritora de não-ficção, ensaísta, feminista e professora; desde a infância, a poeta tomara gosto pela literatura através da biblioteca de seu pai e incentivador nos estudos [leu Ibsen, Arnold, Blake, Keats, Dante Gabriel Rossetti, Tennyson e outros]; a partir de 1966, morando em Nova Iorque, “Rich envolveu-se com a Nova Esquerda e tornou-se profundamente ativa no ativismo contra a guerra [do Vietnã], pelos direitos civis e pelo feminismo.”; como professora, lecionou em muitas instituições: Swarthmore College, Columbia University School of the Arts, City College of New York, Brandeis University, Stanford University e várias outras; suas obras: A Change of World (poesias, Uma Mudança de Mundo, 1951), The Diamond Cutters, and Other Poems (Os Lapidadores de Diamantes e Outros Poemas, 1955), Snapshots of a daughter in-law: poems, 1954-1962 (Instantâneos de uma nora: poemas, 1954-1962, 1963), Necessities of life: poems, 1962-1965 (Necessidades da vida: poemas 1962-1965, 1966), The Will to Change: Poems 1968-1970 (A Vontade de Mudar: Poemas 1968-1970, 1971), Diving into the Wreck: Poems 1971-1972 (Mergulhando no Naufrágio: poemas 1971-1972, 1973), Of Woman Born: Motherhood as Experience and Institution (De Mulher Nascida: A Maternidade como Experiência e Instituição, 1976), On Lies, Secrets and Silence Selected Prose, 1966-1978 (Sobre Mentiras, Segredos e Silêncio: prosa selecionada, 1966-1978, 1979), Blood, Bread, and Poetry: Selected Prose, 1979–1985 (Sangue, Pão e Poesia: prosa selecionada, 1986), What Is Found There: Notebooks on Poetry and Politics (O que se encontra lá: Cadernos sobre poesia e política, 1993), Dark Fields of the Republic: Poems, 1991-1995 (Campos Escuros da República: Poemas, 1991-1995, 1995), Adrienne Rich — Collected Poems, 1950-2012 (2016) e muitos outros títulos em verso e prosa; a poeta, ensaísta e ativista do feminismo, que enviuvara no início dos anos 70, em 1976 iniciou sua “parceria homossexual com a romancista e editora jamaicana Michelle Cliff”, que durou até 27 de março de 2012 [data da morte de Adrienne Rich]; premiações e honrarias: Yale Younger Poets Award (Prêmio Yale para Jovens Poetas, pela obra A Change of World, 1950), Lenore Marshall Poetry Prize (Prêmio Lenore Marshall de Poesia, 1992), Wallace Stevens Award (Prêmio Wallace Stevens 1996) etc.; Rich foi a única pessoa a recusar a National Medal of Arts (Medalha Nacional das Artes, 1997), “a mais alta honraria do governo ‘estadunidense’ para artistas” oferecida a ela pelo então presidente Bill Clinton, com a justificativa de que não podia ser hipócrita e aceitar prêmio oferecido pelos mesmos “poderosos que fazem da arte uma refém do poder e do dinheiro”.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Adrienne Rich: Que tempos são estes

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[traduzido por Marcelo Lotufo]

Há um lugar entre duas fileiras de árvores onde a grama cresce colina
acima
e a velha estrada revolucionária acaba em sombras
perto da assembleia abandonada pelos perseguidos
que desapareceram nessas sombras.

Caminhei por lá colhendo cogumelos no limite do temor; mas não se
deixe enganar
este não é um poema russo, isto não é em algum outro lugar, mas
aqui;
nosso país aproximando-se da sua própria verdade e temor,
da sua própria maneira de fazer pessoas desaparecerem.

Eu não vou dizer onde fica este lugar, a trama escura da floresta
encontrando o feixe de luz não assinalado
encruzilhadas possuídas por fantasmas, paraíso em decomposição:
eu já sei quem quer comprá-lo, vendê-lo, fazer com que desapareça.

E eu não lhe direi onde fica; então por que eu lhe conto essa e outras
coisas? Porque você ainda me escuta, porque em tempos como estes
para você me escutar ao menos um pouco, é preciso
falar das árvores.

1991

Adrienne Rich

What Kind of Times Are These

There's a place between two stands of trees where the grass grows
uphill
and the old revolutionary road breaks off into shadows
near a meeting-house abandoned by the persecuted
who disappeared into those shadows.

I've walked there picking mushrooms at the edge of dread, but don't be
fooled,
this isn't a Russian poem, this is not somewhere else but here,
our country moving closer to its own truth and dread,
its own ways of making people disappear.

I won't tell you where the place is, the dark mesh of the woods
meeting the unmarked strip of light
ghost-ridden crossroads, leafmold paradise:
I know already who wants to buy it, sell it, make it disappear.

And I won't tell you where it is, so why do I tell you
anything? Because you still listen, because in times like these
to have you listen at all, it's necessary
to talk about trees.

1991

(Dark Fields of the Republic: Poems, 1991-1995, 1995)
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Que tempos são estes e outros poemas edição bilíngue: Adrienne Rich, Organização e Tradução de Marcelo Lotufo, 2018, Edições Jabuticaba, São Paulo SP; Adrienne Celine Rich (1929 2012), estadunidense de Baltimore Maryland, estudou no Radcliffe College bacharelou-se em Artes, foi poeta, escritora de não-ficção, ensaísta, feminista e professora; desde a infância, a poeta tomara gosto pela literatura através da biblioteca de seu pai e incentivador nos estudos [leu Ibsen, Arnold, Blake, Keats, Dante Gabriel Rossetti, Tennyson e outros]; a partir de 1966, morando em Nova Iorque, “Rich envolveu-se com a Nova Esquerda e tornou-se profundamente ativa no ativismo contra a guerra [do Vietnã], pelos direitos civis e pelo feminismo.”; como professora, lecionou em muitas instituições: Swarthmore College, Columbia University School of the Arts, City College of New York, Brandeis University, Stanford University e várias outras; suas obras: A Change of World (poesias, Uma Mudança de Mundo, 1951), The Diamond Cutters, and Other Poems (Os Lapidadores de Diamantes e Outros Poemas, 1955), Snapshots of a daughter in-law: poems, 1954-1962 (Instantâneos de uma nora: poemas, 1954-1962, 1963), Necessities of life: poems, 1962-1965 (Necessidades da vida: poemas 1962-1965, 1966), The Will to Change: Poems 1968-1970 (A Vontade de Mudar: Poemas 1968-1970, 1971), Of Woman Born: Motherhood as Experience and Institution (De Mulher Nascida: A Maternidade como Experiência e Instituição, 1976), On Lies, Secrets and Silence Selected Prose, 1966-1978 (Sobre Mentiras, Segredos e Silêncio: prosa selecionada, 1966-1978, 1979), Blood, Bread, and Poetry: Selected Prose, 1979–1985 (Sangue, Pão e Poesia: prosa selecionada, 1979-1985, 1986), What Is Found There: Notebooks on Poetry and Politics (O que se encontra lá: Cadernos sobre poesia e política, 1993), Dark Fields of the Republic: Poems, 1991-1995 (Campos Escuros da República: Poemas, 1991-1995, 1995), Adrienne Rich Collected Poems, 1950-2012 (2016) e muitos outros títulos em verso e prosa; a poeta, ensaísta e ativista do feminismo, que enviuvara no início dos anos 70, em 1976 iniciou sua “parceria homossexual com a romancista e editora jamaicana Michelle Cliff”, que durou até 27 de março de 2012 [data da morte de Adrienne Rich]; premiações e honrarias: Yale Younger Poets Award (Prêmio Yale para Jovens Poetas, pela obra A Change of World, 1950), Lenore Marshall Poetry Prize (Prêmio Lenore Marshall de Poesia, 1992), Wallace Stevens Award (Prêmio Wallace Stevens, 1996) etc.; Rich foi a única pessoa a recusar a National Medal of Arts (Medalha Nacional das Artes, 1997), “a mais alta honraria do governo ‘estadunidense’ para artistas” oferecida a ela pelo então presidente Bill Clinton, com a justificativa de que não podia ser hipócrita e aceitar prêmio oferecido pelos mesmos “poderosos que fazem da arte uma refém do poder e do dinheiro”.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Sylvia Plath: Canção da prostituta

 
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[traduzido por Marília Garcia]

Já derretida a geada branca
E os sonhos verdes que não valem nada,
Após um dia escasso de trabalho
Chega a hora dessa puta depravada:
Um mero boato sobre ela toma nossas ruas
Até que todos os homens,
Ruivos, brancos ou negros,
Se desviam do seu desleixo.

Veja só, eu grito, essa boca
Feita para a violência,
Esse rosto disforme,
Cheio de manchas, socos, cortes,
A cada ano duro, mais um murro.
Por ali não passa um único homem sequer
Com ânimo para
Remendar, com o ferro do amor, o horror do seu rosto,
Este rosto que, do fosso da sarjeta,
Busca alguma coisa lá no fundo dos meus
Olhos castos.

(O Colosso — 1960)

Sylvia Plath

Strumpet Song

With white frost gone
And all green dreams not worth much,
After a lean day's work
Time comes round for that foul slut:
Mere bruit of her takes our street
Until every man,
Red, pale or dark,
Veers to her slouch.

Mark, I cry, that mouth
Made to do violence on,
That seamed face
Askew with blotch, dint, scar
Struck by each dour year.
Walks there not some such one man
As can spare breath
To patch with brand of love this rank grimace
Which out from black tarn, ditch and cup
Into my most chaste own eyes
Looks up.

(The Colossus [and Other Poems] — 1960)
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Poesia reunida [bilíngue]: Sylvia Plath, Organização e Tradução de Marília Garcia, 1ª edição, 2023, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 — 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em jornais e revistas: Mademoiselle [revista feminina], The Lyric  Grecourt Review, Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic Monthly e Encounter; desde 1956 viveu na Inglaterra após se casar com o britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta, que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental, concretizou seu propósito suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Gilka Machado: Embora de teus lábios afastada . . . [soneto]

 
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Embora de teus lábios afastada
(Que importa?  Tua boca está vazia...)
beijo esses beijos com que fui beijada,
beijo teus beijos, numa nova orgia.

Inda conservo a carne deliciada
pela tua carícia que mordia,
que me enflorava a pele, pois, em cada
beijo dos teus uma saudade abria.

Teus beijos absorvi-os, esgotei-os:
guardo-os nas mãos, nos lábios e nos seios,
numa volúpia imorredoura e louca.

Em teus momentos de lubricidade,
beijarás outros lábios, com saudade
dos beijos que roubei de tua boca.

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Gilka da Costa Melo Machado (1893 1980), nascida no Rio de Janeiro RJ, vinda de uma família de artistas, também trazia a arte nas veias, foi poetisa do simbolismo, feminista e sufragista; desde criança fazia versos, “com seus 13 para 14 anos ela venceu um concurso promovido pelo jornal A Imprensa, tendo conquistado não apenas o primeiro, mas também o segundo e o terceiro lugar com seus poemas (poemas quais foram assinados com seu nome e com pseudônimo)”; escreveu e publicou Cristais Partidos (1915), A revelação dos perfumes (1916), Estados de Alma (1917), Mulher Nua (1922), Meu Glorioso Pecado (1928), Poesia (1929), Sublimação (1938), Carne e alma (1938), Meu Rosto (1947), Velha poesia (1965) e Poesias Completas (1987); a respeito da poetisa, o crítico literário Péricles Eugênio da Silva Ramos comenta que “foi a maior figura feminina de nosso Simbolismo, em cuja ortodoxia se encaixa com seus dois livros capitais, Cristais Partidos e Estados de Alma.”; Gilka Machado foi pioneira no uso do erótico na poesia feminina brasileira, e, como feminista e sufragista, fez parte do grupo de mulheres que, ao lado de Bertha Lutz, criaram o Partido Republicano Feminino no ano de 1910 e no qual lutavam prioritariamente “pelo direito da mulher em votar”; recebeu premiações por sua obra: Revista O Malho (1933) e Academia Brasileira de Letras Prêmio Machado de Assis (1979).

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Denise Levertov: O Segredo

 
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[traduzido por Jorge Wanderley]

Duas meninas descobrem
o segredo da vida
numa linha súbita
de poesia.

Eu, que não sei o
segredo, escrevi
este verso. Elas
me dizem:

(através de outra pessoa)
que descobriram,
mas não dizem o que era
nem tampouco

qual o verso. Agora,
que já faz uma semana,
certamente esqueceram
o segredo,

qual era o verso ou o nome
do poema. E eu amo as duas
por descobrirem aquilo
que não posso descobrir

e por me amarem
e ao verso que escrevi
e porque o esqueceram,
de modo

que mil vezes até que a morte
as encontre, elas poderão
fazer a descoberta de novo, em outros
versos.

em outros
acontecimentos. Amo-as por desejarem
descobrir,
por

admitirem que exista
um tal segredo; sim, amo-as
principalmente
por isto.

Denise Levertov

The Secret

Two girls discover
the secret of life
in a sudden line of
poetry.

I, who don't know the
secret wrote
the line. They
told me

(through a third person)
they had found it
but not what it was
not even

what line it was. No doubt
by now, more than a week
later, they have forgotten
the secret,

the line, the name of
the poem. I love them
for finding what
I can't find,

and for loving me
for the line I wrote,
and for forgetting it
so that

a thousand times, till death
finds them, they may
discover it again, in other
lines

in other
happenings. And for
wanting to know it,
for

assuming there is
such a secret, yes,
for that
most of all.
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Do jeito delas: vozes femininas de língua inglesa [várias poetas], edição bilíngue, Organização/ensaios de Márcia Cavendish Wanderley, Carlos Eduardo Fialho e Sueli Cavendish, Nota Introdutória de Geraldo Carneiro, Tradução de Jorge Wanderley e Apresentação/orelhas do livro por Paulo Henriques Britto, 2008, Editora 7Letras, Rio de Janeiro — RJ; Denise Levertov (1923 1997) ou Priscilla Denise Levertoff, inglesa de Ilford, Essex, tendo recebido educação em casa, “demonstrou entusiasmo pela escrita desde cedo e estudou balé, arte, piano e francês, além de disciplinas básicas”, foi poeta, ativista política e feminista; aos 12 anos, remeteu alguns de seus poemas a T. S. Eliot, poeta já consagrado, e obteve como resposta uma “carta de duas páginas” incentivando-a; aos 17 anos, publicou seu primeiro poema, nesta mesma época atuou como enfermeira civil em Londres por ocasião do bombardeio aéreo ao sul da cidade, atacado por aviões alemães nazistas; seu primeiro livro de poesia, The Double Image, foi publicado em 1946; em 1947, por ter se casado com o escritor americano Mitchell Goodman, foi morar nos Estados Unidos, passou a viver principalmente em Nova York, vindo a naturalizar-se cidadã estadunidense em 1955; obras poéticas: The Double Image (1946), Here and Now (1956), With Eyes at the Back of our Heads (1959), O Taste and See: New Poems (1964) ...; consta de sua biografia que, nas décadas de 1960 e 1970, tornou-se “muito mais politicamente ativa em sua vida e obra”, como editora de poesia do The Nation, apoiou e publicou trabalhos de poetas feministas e de outros ativistas de esquerda, juntou-se ao War Resisters League, em oposição à participação na Guerra do Vietnam, tendo sido membro fundadora do coletivo anti-guerra, ao lado de Noam Chomsky, Mitchell Goodman e outros; a poeta também atuou na educação, lecionando na Brandeis University, no MIT, na Tufts University, na University of Massachusetts Boston, na Stanford University (professora de inglês [emérita]), na University of Washington; em 1984, recebeu o diploma de Doutora em Literatura pelo Bates College e, de 1982 a 1993, foi professora titular na Stanford University; Denise Levertov foi biografada por Dana Greene [Denise Levertov: A Poet’s Life, pela University of Illinois Press, 2012] e por Donna Krolik Hollenberg [A Poet's Revolution: The Life of Denise Levertov, pela University of California Press, 2013]; o reconhecimento de sua importância nos meios literários estadunidenses das décadas de 1950 e 1960 “não veio de seus pares da mesma geração, mas de poetas vanguardistas, mais velhos e consagrados", Keneth Rexroth e William Carlos Williams entre os quais.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Sylvia Plath: Lesbos

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes
e Maurício Arruda Mendonça]

Safadeza na cozinha!
As batatas sibilam.
Isso é Hollywood, sem janelas,
A luz fluorescente oscila como uma enxaqueca terrível.
Nas portas, tiras de papel 
Cortinas de teatro, o cabelo crespo da viúva.
E eu, Amor, sou uma mentirosa patológica,
E minha filha  olhe só pra ela, de cara no assoalho,
Fantoche sem cordas, tremendo até sumir 
Como é esquizofrênica,
Sua cara corada e pálida, em pânico:
Você botou os gatos dela pra fora da janela
Numa caixa com areia
Onde podem vomitar e cagar e miar sem que ela possa ouvir.
Você diz que não suporta mais,
A putinha.
Você queimou suas válvulas como um rádio velho
Limpo de vozes e história, o ruído novo
Da estática.
Você diz que eu afogaria os gatinhos. Que fedor!
Você diz que eu afogaria minha filha.
Ela vai cortar a garganta aos dez se não pirar aos dois.
O sorriso do bebê, lesma obesa,
Nos losangos lustrados de linóleo laranja.
Você podia comê-lo. É um menino.
Você diz que seu marido não é bom pra você.
Sua mãe judia vigia seu sexo como jóia.
Você tem um bebê, eu tenho dois.
Eu bem podia me sentar numa rocha e me pentear.
Podia usar colã de tigresa e ter um affair.
A gente bem que podia se ver na outra vida, se ver no ar,
Só eu e você.

Porém há um cheiro de banha e cocô de bebê.
Estou dopada e enjoada depois do último sonífero.
Fumaça de cozinha, fumaça infernal
Nos sobrevoa, rivais venenosas,
Nossos ossos, nossos pêlos.
Te xingo de Órfã, órfã. Você esta doente.

O sol te dá úlcera, o vento, tuberculose.
Um dia você foi bonita.
Em Nova York, em Hollywood, os homens te diziam: "Acabou?
Gata, você é demais!".
Você servia, servia, servia pro papel.
E o marido brocha sai pra tomar um café.
Tento segurá-lo, não saio,
Relâmpago para um velho pára-raio,
Os banhos ácidos, um céu inteiro cheio de você.
Ele despenca da colina de plástico,
Trem desgovernado. Faíscas azuis se espalham,
Trincando como quartzo em milhões de pedacinhos.

O jóia! Ó valiosa!
Naquela noite a lua
Arrastou seu saco de sangue, animal
Doente
Por sobre as luzes do cais.
Então voltava ao crescente,
Dura, branca e ausente.
Na areia o brilho das escamas me matava de medo.
A gente as apanhava aos montes, curtindo,
Modelando-as como massa, um corpo mulato,
Grãos de seda.
Um cachorro pegou seu marido cachorro. E se mandou.

Agora estou quieta, ódio
Até o pescoço,
Grosso, grosso.
Não falo nisso.
Empacoto batatas como roupas finas,
Empacoto os bebês,
Empacoto os gatos doentes.
Oh, ampola de ácido,
É de amor que você esta cheia. Você sabe quem você odeia.
Ele ruge e arrasta as correntes pelo portão
Que se abre pro mar
Onde ele invade, preto e branco,
E o vomita de volta.
Você o enche com seus papos profundos, como um jarro.
Você está um trapo.

Sua voz, meu brinco,
Voa e suga, morcego que ama sangue.
Isso é isso. Aquilo é aquilo.
Você escuta atrás da porta,
Bruxa triste. "Toda mulher é uma puta.
Não consigo dialogar."

Vejo seu fino décor
Te fechando como o punho de um bebê
Ou uma anêmona, esse mar,
Meu bem, cleptomaníaco.
Ainda estou crua.
Quem sabe um dia eu vou voltar.
Você sabe pra que servem as mentiras.

Nem no seu paraíso Zen a gente vai se cruzar.

Sylvia Plath

Lesbos

Viciousness in the kitchen!
The potatoes hiss.
It is all Hollywood, windowless,
The fluorescent light wincing on and off like a terrible migraine,
Coy paper strips for doors
Stage curtains, a widow’s frizz.
And I, love, am a pathological liar,
And my child look at her, face down on the floor,
Little unstrung puppet, kicking to disappear
Why she is schizophrenic,
Her face is red and white, a panic,
You have stuck her kittens outside your window
In a sort of cement well
Where they crap and puke and cry and she can’t hear.
You say you can’t stand her,
The bastard’s a girl.
You who have blown your tubes like a bad radio
Clear of voices and history, the staticky
Noise of the new.
You say I should drown the kittens. Their smell!
You say I should drown my girl.
She’ll cut her throat at ten if she’s mad at two.
The baby smiles, fat snail,
From the polished lozenges of orange linoleum.
You could eat him. He’s a boy.
You say your husband is just no good to you.
His Jew-Mama guards his sweet sex like a pearl.
You have one baby, I have two.
I should sit on a rock off Cornwall and comb my hair.
I should wear tiger pants, I should have an affair.
We should meet in another life, we should meet in air,
Me and you.

Meanwhile there’s a stink of fat and baby crap.
I’m doped and thick from my last sleeping pill.
The smog of cooking, the smog of hell
Floats our heads, two venemous opposites,
Our bones, our hair.
I call you Orphan, orphan. You are ill.

The sun gives you ulcers, the wind gives you T. B.
Once you were beautiful.
In New York, in Hollywood, the men said: 'Through?
Gee baby, you are rare.'
You acted, acted for the thrill.
The impotent husband slumps out for a coffee.
I try to keep him in,
An old pole for the lightning,
The acid baths, the skyfuls off of you.
He lumps it down the plastic cobbled hill,
Flogged trolley. The sparks are blue.
The blue sparks spill,
Splitting like quartz into a million bits.

O jewel! O valuable!
That night the moon
Dragged its blood bag, sick
Animal
Up over the harbor lights.
And then grew normal,
Hard and apart and white.
The scale-sheen on the sand scared me to death.
We kept picking up handfuls, loving it,
Working it like dough, a mulatto body,
The silk grits.
A dog picked up your doggy husband. He went on.

Now I am silent, hate
Up to my neck,
Thick, thick.
I do not speak.
I am packing the hard potatoes like good clothes,
I am packing the babies,
I am packing the sick cats.
O vase of acid,
It is love you are full of. You know who you hate.
He is hugging his ball and chain down by the gate
That opens to the sea
Where it drives in, white and black,
Then spews it back.
Every day you fill him with soul-stuff, like a pitcher.
You are so exhausted.

Your voice my ear-ring,
Flapping and sucking, blood-loving bat.
That is that. That is that.
You peer from the door,
Sad hag. 'Every woman’s a whore.
I can’t communicate.'

I see your cute décor
Close on you like the fist of a baby
Or an anemone, that sea
Sweetheart, that kleptomaniac.
I am still raw.
I say I may be back.
You know what lies are for.

Even in your Zen heaven we shan’t meet.

18 October 1962
____________________
Sylvia Plath: Poemas, bilíngue, Organização, Tradução, Ensaios e Notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, 2ª edição, 2ª reimpressão, 2007, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em jornais e revistas: Mademoiselle [revista feminina], The Lyric, Grecourt Review, Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic Monthly e Encounter; desde 1956 viveu na Inglaterra após se casar com o britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta, que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental, concretizou seu propósito suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.

terça-feira, 29 de julho de 2025

Sylvia Plath: Canção da manhã

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes
e Maurício Arruda Mendonça]

O amor te põe pra funcionar, relógio de ouro puro.
A parteira surra suas nádegas, e seu grito nu
Se aninha entre os elementos.

Nossas vozes ecoam, louvando sua vinda. Estátua nova.
Num museu arejado, sua nudez
Ameaça nossa segurança. Ficamos rodeando, brancos como paredes.

Não sou mais sua mãe
Do que a nuvem que desfaz o espelho que a reflete,
Rabisco lento na mão do vento.

De noite sua respiração corrosiva
Vacila entre rosas lisas. Acordo para ouvir:
Longe, um mar movendo em meus ouvidos.

Um grito, e escorrego da cama, vaca obesa e floral
Em minha camisola vitoriana.
Sua boca se abre, limpa como a de um gato. A vidraça

Empalidece e suga estrelas sujas. E agora você confere
Suas anotações;
Vogais claras sobem feito balões.

Sylvia Plath

Morning song

Love set you going like a fat gold watch.
The midwife slapped your footsoles, and your bald cry
Took its place among the elements.

Our voices echo, magnifying your arrival. New statue.
In a drafty museum, your nakedness
Shadows our safety. We stand round blankly as walls.

I’m no more your mother
Than the cloud that distills a mirror to reflect its own slow
Effacement at the wind’s hand.

All night your moth-breath
Flickers among the flat pink roses. I wake to listen:
A far sea moves in my ear.

One cry, and I stumble from bed, cow-heavy and floral
In my Victorian nightgown.
Your mouth opens clean as a cat’s. The window square

Whitens and swallows its dull stars. And now you try
Your handful of notes;
The clear vowels rise like balloons.

Ariel (coleção de poemas, 1965)
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Sylvia Plath: Poemas, bilíngue, Organização, Tradução, Ensaios e Notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, 2ª edição, 2ª reimpressão, 2007, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; viveu na Inglaterra desde o seu casamento com o poeta britânico Ted Hughes; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativa de suicídio, a poeta suicidou-se em 11 de fevereiro de 1963.