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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Augusto dos Anjos: Versos Íntimos

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa
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Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão 
 esta pantera 
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Pau d’Arco  1901
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Eu, outras poesias, poemas esquecidos — Texto e Nota: Antônio Houaiss, Elogio do poeta: Orris Soares, Notas biográficas: Francisco de Assis Barbosa — 30ª. edição, 1965, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, formado em Direito pela Faculdade de Recife, professor, foi poeta e publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Casimiro de Abreu: Deus

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa
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Eu me lembro! eu me lembro! — Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia
E, erguendo o dorso altivo, sacudia
A branca escuma para o céu sereno.

E eu disse à minha mãe nesse momento:
“Que dura orquestra! Que furor insano!
Que pode haver maior do que o oceano,
Ou que seja mais forte do que o vento?!”

Minha mãe a sorrir olhou pr'os céus
E respondeu: — “ Um Ser que nós não vemos
É maior do que o mar que nós tememos,
Mais forte que o tufão! meu filho, é — Deus!” —

Dezembro — 1858
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Poetas Românticos Brasileiros — Volume III, Editora e Encadernadora Lumen Ltda, sem data, São Paulo — SP; Casimiro José Marques de Abreu (1839 — 1860), fluminense nascido em Barra de São João (rebatizada Casimiro de Abreu, em sua homenagem), recebeu tão somente instrução primária (de 1849 a 1852); foi poeta do romantismo e iniciou sua atividade literária publicando um conto, durante estada em Portugal, aonde tinha ido acompanhado do pai; em Lisboa, também escreveu a maior parte de seus poemas e outros textos, compôs o drama Camões e o Jau — representado no Teatro Dom Fernando, em 1856 — e também colaborou na imprensa portuguesa, ao lado de Alexandre Herculano, Rebelo da Silva e outros; no jornal O Progresso foi impresso o folhetim Carolina e na revista Ilustração Luso-Brasileira foram publicados os primeiros capítulos  de Camila, recriação ficcional de uma visita que fez ao Minho, terra de seu pai; em 1857, de retorno ao Rio de Janeiro, frequentou rodas literárias e, colaborador da imprensa, escreveu em A Marmota, O Espelho, revista Popular e jornal Correio Mercantil; neste último, conviveu com Manoel Antonio de Almeida (jornalista) e com Machado de Assis (revisor); obras literárias: Camões e o Jau (teatro, 1856), Carolina (romance, 1856), Camila (romance inacabado, 1856), A Virgem Loura, Páginas do Coração (prosa poética, 1857), Primaveras (poesia, 1859); morreu de tuberculose, aos 21 anos de idade.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Manuel Bandeira: A Estrela

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.

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Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.
Poesias Completas
(1944, Rio de Janeiro - RJ)


Manuel Bandeira *


* Desenho de Cândido Portinari
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Antologia da Poesia Brasileira Moderna, Organização e Introdução de Carlos Burlamaqui Kopke — Clube da Poesia de São Paulo, 1953; Manuel Bandeira (1886  1968), pernambucano de Recife, foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e antologista; seu legado literário é extenso, deixou-nos muitas obras em verso e prosa e também organizou e publicou antologias de diversos autores e épocas; obra poética: A Cinza das Horas (Edição do Autor, 1917, Jornal do Comércio, Rio de Janeiro  RJ), Carnaval (Edição do Autor, 1919, Rio de Janeiro), Poesias, acrescida de O Ritmo Dissoluto (1924, Rio de Janeiro), Libertinagem (Edição do Autor, 1930, Rio de Janeiro), Estrela da Manhã (Edição do Autor, 1936, Rio de Janeiro), Poesias Completas, acrescida de Lira dos Cinquent'Anos (Edição do Autor, Rio de Janeiro), Poemas Traduzidos (1945, Rio de Janeiro), Opus 10 (1952, Niterói  RJ), Alumbramentos (1960, Rio de Janeiro), Estrela da Tarde (1960, Rio de Janeiro) e outros; obra em prosa: Crônicas da Província do Brasil (1936, Rio de Janeiro), Guia de Ouro Preto (1938, Rio de Janeiro), Noções de História das Literaturas (1940, Rio de Janeiro), Autoria das Cartas Chilenas (1940, Rio de Janeiro), Apresentação da Poesia Brasileira (1946, Rio de Janeiro), Literatura Hispano-Americana (1949, Rio de Janeiro), Gonçalves Dias, Biografia (1952, Rio de Janeiro), De Poetas e de Poesia (1954, Rio de Janeiro), A Flauta de Papel (1957, Rio de Janeiro), Andorinha, Andorinha (1966, José Olympio, Rio de Janeiro), Itinerário de Pasárgada (1966, Editora do Autor, Rio de Janeiro), Colóquio Unilateralmente Sentimental (1968, Editora Record, Rio de Janeiro), Berimbau e Outros Poemas (Nova Fronteira, Rio de Janeiro) e outros; antologias: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica, da Fase Parnasiana, da Fase Moderna — Volume 1, da Fase Moderna — Volume 2 (todas editadas pela Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia Simbolista (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia Poética (1961, Editora do Autor, Rio de Janeiro), Poesia do Brasil (1963, Editora do Autor, Rio de Janeiro) e outros; além disso, selecionou e organizou obras de outros autores e traduziu textos de Schiler, Shakespeare, Jean Cocteau, Zorrilla, Fréderic Mistral, Brecht, Morris West, John Ford e outros.

Vicente de Carvalho: A Flor e a Fonte*

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.
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"Deixa-me, fonte!" Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Cantava, levando a flor.

"Deixa-me, deixa-me, fonte!"
Dizia a flor a chorar:
"Eu fui nascida no monte...
"Não me leves para o mar."

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

"Ai, balanços do meu galho.
"Balanços do berço meu;
"Ai, claras gotas de orvalho
"Caídas do azul do céu!..."

Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.

"Adeus, sombra das ramadas,
"Cantigas do rouxinol;
"Ai, festa das madrugadas,
"Doçuras do pôr-do-sol;

"Carícias das brisas leves
"Que abrem rasgões de luar...
"Fonte, fonte, não me leves,
"Não me leves para o mar!..."

                  

As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor.
Rosa, Rosa de Amor,
 V - Cair das Folhas

* O nome do poema, originalmente, era  "Cair das Folhas". Em
sua "Apresentação", Fausto Cunha expõe que 'o título pareceu
sempre tão estranho, que terminou sendo alterado para "A Flor
e a Fonte" ', sem explicar quando nem por quem.
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Vicente de Carvalho  Poesia, Apresentação e Seleção de Fausto Cunha, Volume 81 da Coleção Nossos Clássicos, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1965, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro  RJ; Vicente Augusto de Carvalho (1866 — 1924), paulista de Santos, bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP  SP), além de ter feito carreira na área da Justiça (advocacia, juizado e ministério estadual), foi jornalista, poeta e contista; escreveu e publicou Ardentias (1885), Relicário (1888), Rosa, Rosa de Amor (1902), Poemas e Canções (1908), Versos da Mocidade (1909), Verso e Prosa (1909), Páginas Soltas (1911), A Voz dos Sinos (1916), Luizinha (contos, 1924); é considerado por estudiosos da literatura brasileira um dos principais nomes do parnasianismo.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Luís Guimarães Júnior: Visita à Casa Paterna *

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.

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Como a ave que volta ao ninho antigo,
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma, talvez, do amor materno,
Tomou-me as mãos, olhou-me grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo.

Era esta sala... (Oh! se me lembro! e quanto!)
Em que, da luz noturna à claridade,
Minhas irmãs e minha mãe... O pranto

Jorrou-me em ondas... Resistir quem há-de?
 Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade...

(Luís Guimarães Júnior, Os Cem Melhores Sonetos Brasileiros) **
(Transcrito por José de Sá Nunes  Língua Vernácula 
 Gramática e Antologia, 1a. e 2a. séries, 3a. edição, 1938,
 Edição da Livraria Globo, Porto Alegre  RS)

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* Conferido com Péricles Eugênio da Silva Ramos, Panorama da Poesia Brasileira, Volume III: Parnasianismo, com Obras Primas da Lírica Brasileira, Seleção de Manuel Bandeira, Livraria Martins Editora, São Paulo SP e Alberto de Oliveira, Os Cem Melhores Sonetos Brasileiros.
** Esta é a forma encontrada em José de Sá Nunes. Entretanto, Os Cem Melhores Sonetos Brasileiros é título de uma coletânea de Alberto de Oliveira, da qual faz parte Luís Guimarães Júnior.
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Antologia de Antologias — 101 poetas brasileiros "revisitados", Organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, e Prefácio de Alfredo Bosi, 1ª edição (2ª  reimpressão), Musa Editora, 2004, São Paulo — SP; Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (1845? 1898), nascido no Rio de Janeiro, formado em Direito na Faculdade de Recife, foi poeta, folhetinista, comediógrafo, jornalista e diplomata, e publicou Lírio Branco (1862), Uma Cena Contemporânea (teatro, 1862), Corimbos (poesia, 1866), A Família Agulha (romance, 1870), Noturnos (poesia, 1872), Filigranas (ficção, 1872), Sonetos e Rimas (poesia, 1880) etc.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Castro Alves: Crepúsculo Sertanejo

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.
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A tarde morria! Nas águas barrentas
As sombras das margens deitavam-se longas;
Na esguia atalaia das árvores secas
Ouvia-se um triste chorar de arapongas.

A tarde morria! Dos ramos, das lascas,
Das pedras, do líquen, das heras, dos cardos,
As trevas rasteiras com o ventre por terra
Saíam, quais negros, cruéis leopardos.

A tarde morria! Mais funda nas águas
Lavava-se a galha do escuro ingazeiro...
Ao fresco arrepio dos ventos cortantes
Em músico estalo rangia o coqueiro.

Sussurro profundo! Marulho gigante!
Talvez um  silêncio!... Talvez uma  orquesta...
Da folha, do cálix, das asas, do inseto...
Do átomo 
 à estrela... do verme  à floresta!...

As garças metiam o bico vermelho
Por baixo das asas, 
 da brisa ao açoite ;
E a terra na vaga de azul do infinito
Cobria a cabeça co'as penas da noite!

Somente por vezes, dos jungles das bordas
Dos golfos enormes, daquela paragem,
Erguia a cabeça surpreso, inquieto,
Coberto de limos 
 um touro selvagem.

Então as marrecas, em torno boiando,
O vôo encurvavam medrosas, à toa...
E o tímido bando pedindo outras praias
Passava gritando por sobre a canoa!...

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(A Cachoeira de Paulo Afonso)

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Castro Alves  Obra completa em um volume, quinta edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro  RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847  1871), baiano, um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes, Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; Em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?! Cito Vozes d'África, O Navio Negreiro, A Canção do Africano, Bandido Negro, Mater Dolorosa, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Vinicius de Moraes: Soneto de fidelidade

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.

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De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
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Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século  Seleção e Organização de Ítalo Moriconi, Editora Objetiva, 2001, São Paulo  SP; Vinicius de Moraes (1913  1980), além de poeta, foi crítico de cinema, autor teatral (escreveu Orfeu Negro, que se tornaria um filme premiado) e letrista concorrido da Música Popular Brasileira; obra poética: Forma e exegese (1935), Ariana, a mulher (1936), Novos poemas (1938), Poemas, sonetos e baladas (1946), Novos poemas II (1959), Para viver um grande amor (1964) etc.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Álvares de Azevedo: Se eu morresse amanhã

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.
Imagem relacionada
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Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
           Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro.
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
          Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
          Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
          Se eu morresse amanhã!


Grandes Poetas Românticos do Brasil,
Lep, 1949


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Presença da Literatura Brasileira, História e Antologia  Das Origens ao Realismo: Antonio Candido  e José Aderaldo Castello, 1987, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro RJ; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831  1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP  Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Gregório de Matos: Soneto (À cidade da Bahia)

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.

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Triste Bahia! ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante 1,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples
2 aceitas do sagaz brichote 3.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

Notas de José Miguel Wisnik:
1 trocou-te a máquina mercante: trocou-te: com duplo sentido, de comerciar e modificar; máquina mercante: as naus que aportam para comerciar;
2 simples: ingredientes que entram na composição de drogas (Antônio Soares Amora - Panorama da Poesia Brasileira, 1959, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro - RJ);
3 brichote: designação pejorativa de estrangeiro.

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Gregório de Matos  Poemas Escolhidos (Introdução e Notas de José Miguel Wisnik), Círculo do Livro S/A, década de 80 do século 20, São Paulo SP; Gregório de Matos Guerra (1636?  1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra — Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo  volume 1, 1923), Lírica (Lyrical — volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa  volume 3, 1930), Satírica (Satirical  volumes 4 e 5, 1930) e Última (Última  volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.