Mostrando postagens com marcador Emiliano Perneta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Emiliano Perneta. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Emiliano Perneta: Vencidos

 
____________________
Nós ficaremos, como os menestréis da rua,
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?

Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland?… E, mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?

Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço…
Hão de os grandes rolar dos palácios infectos!
E gloria à fome dos vermes concupiscentes!

Embora, nós também, nós, num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! inquietando as estrelas dormentes!

____________________
Os Sonetos — Antologia: diversas autorias, Coordenação Gráfica de Rogério Ramos e Capa e Ilustrações de Percy Deane, 1982, Edição especial para o Banco Lar Brasileiro S. A., L. R. Editores Ltda., São Paulo — SP; Emiliano David Perneta (1866 1921), paranaense nascido “em um sítio” na região de Pinhais, à época zona rural de Curitiba [hoje município de Pinhais PR], formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP, Largo São Francisco), foi poeta, professor de português, jornalista e advogado; teve seus poemas divulgados em revistas e jornais da época, estreando em 1883 com publicação no periódico curitibano O Dilúculo; em 1887, já em São Paulo, fundou A Vida Semanária, da qual foi redator, depois foi coproprietário de A Quinzena Paulista: letras e artes (hoje, periódicos considerados raros, encontrados na Biblioteca Nacional) e, na companhia de outros intelectuais fundou a Folha Literária; em 1888 publicou seu primeiro livro, Músicas; após formar-se trabalhou como jornalista nos periódicos Cidade do Rio e Novidades, ambos no Rio de Janeiro, por um breve período exerceu o ofício de promotor de justiça em Minas Gerais, depois, de retorno a Curitiba, passou a lecionar, trabalhou como auditor do Exército, fundou a revista literária Victrix; integrando-se nos círculos boêmios da capital do estado, difundiu a leitura de autores franceses, Baudelaire entre os quais, e com isso impulsionou o movimento simbolista, ele próprio sendo considerado e reconhecido como “o maior expoente do simbolismo no Paraná”; suas obras: Músicas (1888), Carta à Condessa d’Eu (1889), O Inimigo (prosa dramática, 1889), Alegoria (prosa dramática, 1903), Ilusão (poemas, 1911), Pena de Talião (poema dramático, 1914), Setembro (póstumo, poemas, 1934); produziu libretos operísticos: Papilio Innocentia (ópera, baseada no romance Inocência, de Visconde de Taunay (1911) e A Vovozinha (ópera infantil, 1914); como jornalista, o poeta também colaborou no Diário Popular, na Gazeta de São Paulo e em mais periódicos; Emiliano Perneta foi um dos fundadores do Centro de Letras do Paraná (“núcleo da atual Academia Paranaense de Letras”), do qual tornou-se presidente de 1913 a 1918.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Emiliano Perneta: Entre essa irradiação *

____________________
Ao Emílio de Meneses

Entre essa irradiação enorme, que palpita,
É possível que um dia, eu, pálido, a encontrasse,
Como a sonora luz de Vênus Afrodita,
Em meio do caminho, os dois, e face a face...

E que alucinação e que febre esquisita,
Que cegueira de amor e que ilusão falace,
Quando esse girassol, para a luz infinita,
Cá de dentro de mim, então, desabrochasse!

Seriam negros ou doirados os cabelos?
Junto daquela flor, tremeria de zelos?
Não tombaria morto aos pés desse prazer?

Os olhos de que cor? Não sei. Porém suponho
Que seriam assim tão grandes como um sonho...
Mas já passei a vida, e não a pude ver!

(1907)
 Setembro — edição póstuma, 1934

Resultado de imagem para emiliano Perneta


* Nota de Andrade Muricy: Revive o tema de Mon rêve familier, de Verlaine, em versão subtropical, com aquele "girassol" realmente solar.
____________________
Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 1, por Andrade Muricy, (Coleção de Literatura Brasileira 12), 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Emiliano David Perneta (1866  1921), paranaense nascido na região de Pinhais, perto de Curitiba, foi poeta, professor de português, jornalista e advogado formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP, Largo São Francisco); teve seus poemas divulgados em revistas e jornais da época e publicou Músicas (1888), O inimigo (prosa poemática, 1899), Alegoria (prosa poemática, 1903), Ilusão (1911), Pena de Talião (poema dramático, 1914), Setembro (póstumo, 1934); como jornalista, dirigiu Vida Semanária e Folha Literária e colaborou no Diário Popular e Gazeta de São Paulo entre outros periódicos.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Emiliano Perneta: Ao cair da tarde

Livro Ilusão e Outros Poemas por Emiliano Perneta.Broch
____________________
Agora nada mais. Tudo silêncio. Tudo,
Esses claros jardins com flores de giesta,
Esse parque real, esse palácio em festa,
Dormindo à sombra de um silêncio surdo e mudo…

Nem rosas, nem luar, nem damas… Não me iludo.
A mocidade aí vem, que ruge e que protesta,
Invasora brutal. E a nós que mais nos resta,
Senão ceder-lhe a espada e o manto de veludo?

Sim, que nos resta mais? Já não fulge e não arde
O sol! E no covil negro desse abandono,
Eu sinto o coração tremer como um covarde.

Para que mais viver, folhas tristes de outono?
Cerra-me os olhos, pois, Senhor. É muito tarde.
São horas de dormir o derradeiro sono.

1920
Setembro (póstumo, 1934)

____________________
Ilusão e Outros Poemas — Emiliano Perneta, edição comemorativa do centenário, Organização de Tasso da Silveira — Introdução, Cronologia, Bibliografia e Fontes para Estudo por Andrade Muricy, 1966, Edições GRD, Rio de Janeiro — RJ; Emiliano David Perneta (1866  1921), paranaense nascido na região de Pinhais, perto de Curitiba, foi poeta, professor de português, jornalista e advogado formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP, Largo São Francisco); teve seus poemas divulgados em revistas e jornais da época e publicou Músicas (1888), O inimigo (prosa poemática, 1899), Alegoria (prosa poemática, 1903), Ilusão (1911), Pena de Talião (poema dramático, 1914), Setembro (póstumo, 1934); como jornalista, dirigiu Vida Semanária e Folha Literária e colaborou no Diário Popular e Gazeta de São Paulo entre outros periódicos.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Emiliano Perneta: Solidão

____________________
IV

Que bom se eu fosse aquele lavrador,
Que eu nunca pude ser e que eu não sou,
Que depois de lavrar os campos, flor,
Centeio, milho e trigo semeou...

Esse trabalho nunca lhe amargou,
Mas à hora doce e triste de sol-pôr,
Tanta canseira o pobre desfolhou,
Tanto fez, que semeou a própria dor...

E oh! que amargura, quando a noite vem,
Toda dum roxo frio de lilás...
Quem dera ser o lavrador, porém!

Entrar em casa, a mesa posta, os seus
Em derredor, a consciência em paz,
E tudo em paz, louvado seja Deus!




Nota do Organizador:
É o 4.º de 5 sonetos seguidos de "Solidão". Anuncia a poesia final de Emiliano e cultua a satisfação do dever cumprido e da consciência em paz. Traz a data de maio, 1902.
____________________
Poesia Simbolista, Antologia — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Emiliano David Perneta (1866 1921), paranaense nascido na região de Pinhais, perto de Curitiba, foi poeta, professor de português, jornalista e advogado formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP, Largo São Francisco); teve seus poemas divulgados em revistas e jornais da época e publicou Músicas (1888), O inimigo (prosa poemática, 1899), Alegoria (prosa poemática, 1903), Ilusão (1911), Pena de Talião (poema dramático, 1914), Setembro (póstumo, 1934); como jornalista, dirigiu Vida Semanária e Folha Literária e colaborou no Diário Popular e na Gazeta de São Paulo entre outros periódicos.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Emiliano Perneta: Quadras

____________________

À memória do Albino Silva

Eu de certo não sei, se venho d'um gorila,
Ou se venho talvez do paraíso terreal...
Em todo caso pó, e quando muito argila...
Achei-me um dia aqui; quem sabe por meu mal!

Eu não sei d'onde vim; mas viesse d'onde viesse,
Da poeira ou da luz, do gorila ou de Adão,
Toda a minha ânsia é de subir como uma prece,
Toda a minha ânsia é de brilhar como um clarão.

Para onde vou? Não sei. Qual é o meu destino?
Também não sei. Porém desejo caminhar
Por essa estrada além, bem como um peregrino,
E o meu instinto é como um pássaro a voar!...

____________________
Ilusão e Outros Poemas  Emiliano Perneta, edição comemorativa do centenário, Organização de Tasso da Silveira  Introdução, Cronologia, Bibliografia e Fontes para Estudo por Andrade Muricy, 1966, Edições GRD, Rio de Janeiro  RJ; Emiliano David Perneta (1866  1921), paranaense nascido na região de Pinhais, perto de Curitiba, foi poeta, professor de português, jornalista e advogado formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP, Largo São Francisco); teve seus poemas divulgados em revistas e jornais da época e publicou Músicas (1888), O inimigo (prosa poemática, 1899), Alegoria (prosa poemática, 1903), Ilusão (1911), Pena de Talião (poema dramático, 1914), Setembro (póstumo, 1934); como jornalista, dirigiu Vida Semanária e Folha Literária e colaborou no Diário Popular e Gazeta de São Paulo entre outros periódicos.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Emiliano Perneta: Canção do Diabo *

____________________
Aqui, um dia, neste quarto,
Estava eu a ruminar,
Mas como um ruminante farto,
O tédio amargo, o atroz pesar…

O vento fora pela noite,
Demônio que blasfema em vão,
Cortava rijo como o açoite,
Uivava como um cão.

Eu meditava quanto a vida
Me foi cruel, me foi cruel:
Supus que fosse uma bebida
Doce, mas foi veneno e fel!

E, sobretudo, que ato breve
Dessa tragédia para rir…
Quando de leve, pois, de leve,
Senti a porta se entreabrir…

O quarto todo iluminou-se,
Mas de uma claridade tal,
Como se fosse dia, e fosse
Dia de festa nupcial.

E um vulto, bem como um segredo,
Mais belo do que uma mulher,
Sorriu-me assim: “Não tenhas medo,
Eu sou o arcanjo Lucifer.

Trêmulo de um pavor covarde,
Fugiste-me sempre, porém
Sabia eu que, cedo ou tarde,
Serias meu, de mais ninguém.

Que, ó meu querido, e pobre artista,
Todo a fazer teu próprio mel,
Tu sempre foste um diabolista,
Um anjo mau, anjo revel.

Ora, fugiu-te a primavera,
E os derradeiros sonhos teus:
O céu, a mais banal quimera,
Teu próprio Deus, teu próprio Deus.

A sorte, mesmo, a prostituta,
Inda mais nua que Lais,
Funambulesco ser, escuta,
Quis todo o mundo; e a ti não quis.

O seio abriu, que tanto exala,
Ao proxeneta, e ao ladrão;
A ti, porém, indo beijá-la,
A fêmea torpe riu-se: não!

Teu coração, alma ansiada,
Teu coração, como um Romeu,
De tanto se bater por nada,
Não sei como inda não morreu.

Teu coração, um cata-vento,
De cá pra lá sempre a bater,
Só encontrou o enervamento,
E a máscara do falso prazer.

As damas, bem como um cavalo,
Sobre esse coração d’abril,
Passaram, quase sem olhá-lo,
Nem abraçá-lo, poeta sutil.

Ninguém te amou, nem pôde amar-te,
Nem te entendeu, ser infeliz,
Mas eu, ó triste lírio d’arte,
Sempre te amei, sempre te quis.

O teu furor pela beleza,
Indiferente ao bem e ao mal,
Desoladora guerra acesa,
E, sobretudo, ódio infernal;

A tua esfaimação de oiro,
A sede de subir, subir,
Além daquele sorvedoiro
D’astros e pérolas d’Ofir;

O orgulho teu, furioso grito,
Luxuriosamente cruel,
Crescendo para o infinito,
Como uma torre de Babel.

Orgulho infindo, orgulho santo,
E diabólico, bem sei,
Que tanto horror tem feito, tanto,
Ah! Eu somente o escutei.

E disse: aquele é meu, aquelas
Mágoas cruéis são minhas, eu
Vou levantá-lo até as estrelas,
Até a luz, até o céu…

Vou lhe mostrar reinos de opalas,
Tantas cidades ideais,
Que há de querer talvez contá-las,
Sem as poder contar jamais.

Vou lhe mostrar torres tão grandes,
Torres de ouro e de marfim,
Cem vezes mais altas que os Andes,
Tantas, tantas que não têm fim.

E toda a glória minha, toda,
A ele, cuja imaginação
Inda é mais rica e inda é mais douda
Do que a do próprio Salomão.

Vendo-o descer a encosta rude
Dos anos maus, o elixir
Eu lhe darei da juventude,
Que o faça rir, que o faça rir…

Que é só bebê-lo, e embora exausto,
Embora quase morto já,
O triste e magro doutor Fausto
Reflorirá, reflorirá!

E há de subir comigo, um dia,
Há de subir comigo, a pé,
Por essa longa escadaria,
Que sobem só os que têm fé.

E eu, o flagelo, eu, o açoite,
Eu, o morcego, o diabo, cruz!
Estranho príncipe da noite,
Hei de inundá-lo só de luz!

Hei de lhe dar uma tão rara
Virtude, que baste ele olhar,
Basta querer somente, para
Que o vento acalme e a voz do mar.

E hei de fazê-lo de tal modo,
De tal fluidez, que ele por fim,
O ser humano, o limo, o lodo,
Se torne bem igual a mim.

E tudo só para ofuscá-lo,
Para encantá-lo, tenho, e lhe dou:
A minha espada e o meu cavalo,
A minha glória… E aqui estou.”

Olhei. Brilhava-lhe na fronte
A estrela d’oiro da manhã,
Como num límpido horizonte:
— Eu serei teu irmão, Satã!
(1907)


*Nota do Organizador: Esse hino, pretensamente satanista, apresenta-se numa situação análoga à de "O Corvo", de Poe. Alarga-se, porém, logo, e, numa intensidade expressional, tem ali fórmulas de excepcional força impressiva: "O teu furor pela beleza (que se tornou legendária, e como num signo distintivo da sua poesia); "A tua esfaimação de oiro". "O orgulho teu, furioso grito, / Luxuriosamente cruel", sinestesia de concretizada abstração, metáfora sonoro-dinâmica. "Lucifer" está ali oxítona, à boa maneira brasileira.
____________________
Emiliano Perneta — poesia, Coleção Nossos Clássicos — Volume 43, Organização, Apresentação e Notas de Andrade Muricy, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Corrêa, segunda edição, 1966, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Emiliano David Perneta (1866 1921), paranaense nascido na região de Pinhais, perto de Curitiba, foi poeta, professor de português, jornalista e advogado formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP, Largo São Francisco); teve seus poemas divulgados em revistas e jornais da época e publicou Músicas (1888), O inimigo (prosa poemática, 1899), Alegoria (prosa poemática, 1903), Ilusão (1911), Pena de Talião (poema dramático, 1914), Setembro (póstumo, 1934); como jornalista, dirigiu Vida Semanária e Folha Literária e colaborou no Diário Popular e Gazeta de São Paulo entre outros periódicos.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Emiliano Perneta: Palavras a um Recém-nascido *

____________________
Acabo de escutar o trêmulo vagido
Desse pequeno ser, desse recém-nascido.

É mais um que nos vem do misterioso seio
Da vida, sem poder contar para que veio.

Já que veio, porém, saudemo-lo. É um risonho
Beijo, uma flor, um poema, um fruto, um astro, um sonho!

Venha para fazer conosco a travessia
Deste raivoso mar que espuma noite e dia.

Que venha conhecer como o destino é rude,
Como o destino trai, como o destino ilude.

Se aquele que, ao nascer, trouxe funesta estrela,
Pode bater-se em vão, não consegue vencê-la,

Venha para sofrer, desde o raiar da infância,
O desejo, o furor, o ciúme, as raivas, a ânsia

De não poder domar a formosura eterna,
Mais rebelde e feroz que a própria hidra de Lerna.

Venha para o amor, pois o amor é como
Um raro, um saboroso, um esquisito pomo,

Que, pálido e a tremer de sede e fome, a gente,
Como um lobo voraz, morde sofregamente...

Venha para sentir com que febre se arranca
Lá do fundo do peito o amor, que é uma arma branca,

Para embebê-la, após, soluçando de anseio,
Soluçando de dor, dentro de um outro seio...

Venha para assistir a essa comédia linda,
Encantadora e vã, que nunca mais se finda,

A comédia em que o riso, a lágrima disfarça,
E onde cada um de nós entra como comparsa.

Mas o que mais diverte, o que mais vale a pena,
É de ver Pierrô e Colombina em cena.

É de ver todos dois nessa fúria divina:
Ou Pierrô se enforca ou mata Colombina!

E que venha saber, entre doidos anelos,
Como se vão por terra os mais altos castelos.

Onda leve de um mar, que, às vezes, causa medo,
Venha se esfacelar de encontro a este rochedo,

Em rugidos que irão, como uma espumarada,
Morrer em poeira, em susto, em cóleras, em nada...

Venha para viver esta vida inquieta,
A vida de um artista, a vida de um poeta.

Sim, venha para ter um destino, meu filho,
Um destino sem glória, um destino sem brilho.

E sorver, pouco a pouco, a taça de cicuta,
E bater-se e lutar, porque a vida é uma luta,

E é no meio febril de ódios, que se consomem,
De batalhas brutais, que um homem se faz homem.

E, quando então chegar, mais rígida que a sorte,
Mais cruel do que o amor, a passo e passo, a morte,

E tenha de partir e tenha de ir embora,
Por esse espaço além, por esse mundo em fora,

Mas com tanto pesar, mas com tamanha mágoa,
De esquecer este horror, mais duro que uma frágua,

Onde estão a tremer, atirados e a esmo,
Sangrando e a palpitar, pedaços de si mesmo;

De deixar a canção leve do mês de Outubro,
Mês de abelhas e sol, mês delicioso e rubro,

Mês que recende mais e que tem melhor cheiro
Que o sândalo e a rosa e a flor do jasmineiro,

Mês que faz ressurgir, por entre ramos de hera,
Os velhos troncos nus em verde primavera,

Mês de indolências, mês de sonhos e desejos
E delírios pagãos de abraços e de beijos,

Que, ao despedir-se, pois, mesmo apesar de tudo,
De ser um cavaleiro e não ter tido escudo,

De ser um viajor que andou sempre sozinho,
Um pobre viajor, perdido no caminho,

A galope, a correr atrás de uma esperança,
De uma sombra, que foge, e que nunca se alcança,

— O Seu último adeus, o adeus de despedida,
Seja abençoando o amor, seja abençoando a vida!

(1920)


* Nota do Organizador: Talvez a obra-prima do poeta. A um só tempo sóbria, graciosa e dramática; dum movimento elegante que vai ganhando força de humanidade até o final. Incluída em antologias, é, na verdade, antológica.
____________________
Emiliano Perneta — poesia, Coleção Nossos Clássicos — Volume 43, Organização, Apresentação e Notas de Andrade Muricy, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Corrêa, segunda edição, 1966, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Emiliano David Perneta (1866  1921), paranaense nascido na região de Pinhais, perto de Curitiba, foi poeta, professor de português, jornalista e advogado formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP, Largo São Francisco); teve seus poemas divulgados em revistas e jornais da época e publicou Músicas (1888), O inimigo (prosa poemática, 1899), Alegoria (prosa poemática, 1903), Ilusão (1911), Pena de Talião (poema dramático, 1914), Setembro (póstumo, 1934); como jornalista, dirigiu Vida Semanária e Folha Literária e colaborou no Diário Popular e Gazeta de São Paulo entre outros periódicos.

sábado, 6 de julho de 2013

Emiliano Perneta: Corre mais que uma vela...

____________________
Corre mais que uma vela, mais depressa,
Ainda mais depressa do que o vento,
Corre como se fosse a treva espessa
Do tenebroso véu do esquecimento.

Eu não sei de corrida igual a essa:
São anos e parece que é um momento;
Corre, não cessa de correr, não cessa,
Corre mais do que a luz e o pensamento...

É uma corrida doida essa corrida,
Mais furiosa do que a própria vida,
Mais veloz que as notícias infernais...

Corre mais fatalmente do que a sorte,
Corre para a desgraça e para a morte...
Mas eu queria que corresse mais!


____________________
Antologia dos Poetas Brasileiros  Poesia da Fase Simbolista, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro RJ; Emiliano David Perneta (1866 1921), paranaense nascido na região de Pinhais, perto de Curitiba, foi poeta, professor de português, jornalista e advogado formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP, Largo São Francisco); teve seus poemas divulgados em revistas e jornais da época e publicou Músicas (1888), O inimigo (prosa poemática, 1899), Alegoria (prosa poemática, 1903), Ilusão (1911), Pena de Talião (poema dramático, 1914), Setembro (póstumo, 1934).