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Heráclito desliza na manhã
em Nova York. O músculo do tráfego
(para dizer assim, vento prosaico)
no seu sonho relê sentença eterna
de que o mesmo rio duas vezes
nenhuma imagem verá
em suas águas. E esta gema de absoluto
(verdade, ficção da ironia?)
reverdescendo velhos poemas
é diadema urdido no poeta, flama e
destino, sangue do espírito, delírio
à mesa de Borges (negra Genebra),
punhal de um floral agosto,
irrevogável. Oh tigre cintilante
do sol-posto! Heráclito, nada
mas já espelho, Borges, infinito,
máscara a mastigar o próprio rosto.
SIP (Ser infinitas palavras —
2001) [Avenida Eros], p. 133

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Afonso Henriques Neto (Coleção
Ciranda da Poesia), Estudo/Ensaio e Entrevista por Marcelo Santos, 2012, Editora
UERJ — Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Guimaraens Neto, nascido em 1944,
mineiro de Belo Horizonte, formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB),
com doutorado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), participante ativo do movimento político-cultural conhecido como poesia
marginal da década de 1970, é professor, ensaísta, tradutor e poeta; morou e atuou
em Brasília — DF e atualmente vive no Rio de Janeiro; bibliografia: O misterioso
ladrão de Tenerife (1ª edição em 1972), Restos & estrelas & fraturas (1ª
edição em 1975), Ossos do paraíso (1981), Tudo nenhum (1985), Avenida Eros (1992),
Piano mudo (1992), Abismo com violinos (1995), Eles devem ter visto o caos (1998),
Ser infinitas palavras (2001), Cidade vertigem (ensaio poético, 2005), Fogo Alto:
Catulo, Villon, Blake, Rimbaud, Huidobro, Lorca, Ginsberg (traduções, 2009), Uma
cerveja no dilúvio (2011) e outros; participou de antologias.




