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[traduzido por Oswaldo Orico]
Senhor,
Senhor, há muito tempo, um dia,
sonhei o
amor, como ninguém houvera
ainda
sonhado, amor que fosse e que era
a vida
toda todo uma poesia.
Passa o
inverno e esse amor não chegaria,
passaria
também a primavera;
o verão persistente
volveria...
E o
outono ainda me encontra à sua espera.
Ó Senhor,
sobre minha espádua nua,
faze estalar,
por mão que seja crua,
o látego
que mandas aos perversos,
que já
anoitece sobre minha vida
e esta
paixão ardente e desmedida
eu a gastei,
Senhor, fazendo versos!
Súplica
Señor, Señor, hace ya tiempo, un
día,
Soñé un gran amor como jamás
pudiera
Soñarlo nadie; algún amor que fuera
La vida toda, toda la poesía.
Y pasaba el invierno e no venía
Y volvía a llegar la primavera,
Y el verano de nuevo persistia
Y me hallaba el otoño con mi
espera.
Señor, Señor, mi espalda está
desnuda;
Hay retallos allí con mano ruda
Del látigo que sangras a los
perversos!
Que está la tarde ya sobre mi vida
Y esta pasión ardiente y desmedida
la he perdido, Señor, haciendo
versos!...
* Nota do Organizador Vasco de
Castro Lima: Embora tenha nascido na Suíça, é
considerada argentina, porque na Argentina viveu toda a sua vida. Forma, com
Gabriela Mistral e Juana de Ibarbourou, o trio feminino de maior inspiração
poética no Continente [América do Sul, México e Caribe], em língua espanhola.
Suicidou-se em Mar del Plata, apressando o fim de seu mal incurável.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto: Vasco
de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987,
Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Alfonsina
Storni Martignoni (1892 — 1938), nascida em Sala Capriasca — Suíça, filha de pais
argentinos, foi poeta, atriz e professora; aos 4 anos de idade retornou à Argentina,
tendo, a partir daí, levado uma vida com dificuldades financeiras e, para o sustento
da família, trabalhou como costureira e operária; já aos 12 anos, Alfonsina escreveu
seus primeiros versos, e, logo depois, como operária em fábrica de gorros, se destacou
por seu humor e participação “na luta pelas reivindicações sociais, engajada nas
fileiras anarquistas”; também teve destaque em experiências como atriz em companhia
teatral e, em turnê que durou um ano, se apresentou em várias localidades do país;
estudou na Escuela Normal Mixta de Maestros Rurales de Coronda, onde também trabalhou,
depois de formada mudou-se para Rosário e ali exerceu o ofício de professora, colaborou
regularmente nas revistas Mundo Rosarino e Monas y Monadas, tornando-se dirigente
do Comitê Feminista de Santa Fé; já em Buenos Aires, agora trabalhando em farmácia
e também como vendedora de loja, logo tornou-se “corresponsal psicológico”, na empresa
Freixas Hermanos, importadora de azeite de oliva; estreou com seu primeiro livro
(La inquietud del rosal), fez suas primeiras colaborações literárias nas revistas
Caras y Caretas, Fray Mocho, El Hogar, Mundo Argentino, La Nota, estabeleceu vínculos
com o grupo intelectual da revista Nosotros, participou de saraus, passou a recitar
seus poemas em bibliotecas, prosseguiu com a militância em grupos feministas e socialistas;
depois, colaborou com o jornal La Nacion, fazendo uso do pseudônimo Tao-Lao; continuando
no desempenho da atividade de professora, lecionou em várias escolas: Colegio Marcos
Paz, Escuela de Niños Débiles del parque Chacabuco, Instituto de Teatro Infantil
Labardén, Escuela Normal de Lenguas vivas, Conservatório de Música y Declamación
e Escuela de Adultos Bolivar, onde, em aulas noturnas, ensinou “castellano y aritmética”; suas obras: La inquietud
del rosal (1916), El Dulce daño (1918), Irremediablemente (1919), Languidez (1920),
Ocre (1925), Poemas de Amor (poemas em prosa, 1926), Mundo de siete pozos (1934),
Mascarilla y trébol (1938) e outros títulos em prosa e verso e peças teatrais; com
suas atitudes inovadoras, as mulheres do seu tempo, umas a admiravam e outras a
viam como perigosa e, com a publicação do poema 'La Loba', Alfonsina causou escândalo;
recebeu premiações por sua obra; consta que a poeta suicidou-se caminhando para
dentro do mar, e tal ato foi registrado poeticamente na canção ‘Alfonsina y el mar’
gravada por Mercedes Sosa; teve seu corpo resgatado do oceano no dia 25 de outubro
de 1938; três dias antes de suicidar-se enviou para publicação em um jornal o soneto
‘Voy a dormir’.