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quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Alfonsina Storni *: A súplica


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[traduzido por Oswaldo Orico]

Senhor, Senhor, há muito tempo, um dia,
sonhei o amor, como ninguém houvera
ainda sonhado, amor que fosse e que era
a vida toda todo uma poesia.

Passa o inverno e esse amor não chegaria,
passaria também a primavera;
o verão persistente volveria...
E o outono ainda me encontra à sua espera.

Ó Senhor, sobre minha espádua nua,
faze estalar, por mão que seja crua,
o látego que mandas aos perversos,

que já anoitece sobre minha vida
e esta paixão ardente e desmedida
eu a gastei, Senhor, fazendo versos!

Alfonsina Storni

Súplica

Señor, Señor, hace ya tiempo, un día,
Soñé un gran amor como jamás pudiera
Soñarlo nadie; algún amor que fuera
La vida toda, toda la poesía.

Y pasaba el invierno e no venía
Y volvía a llegar la primavera,
Y el verano de nuevo persistia
Y me hallaba el otoño con mi espera.

Señor, Señor, mi espalda está desnuda;
Hay retallos allí con mano ruda
Del látigo que sangras a los perversos!

Que está la tarde ya sobre mi vida
Y esta pasión ardiente y desmedida
la he perdido, Señor, haciendo versos!...

* Nota do Organizador Vasco de Castro Lima: Embora tenha nascido na Suíça, é considerada argentina, porque na Argentina viveu toda a sua vida. Forma, com Gabriela Mistral e Juana de Ibarbourou, o trio feminino de maior inspiração poética no Continente [América do Sul, México e Caribe], em língua espanhola. Suicidou-se em Mar del Plata, apressando o fim de seu mal incurável.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto: Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Alfonsina Storni Martignoni (1892 1938), nascida em Sala Capriasca Suíça, filha de pais argentinos, foi poeta, atriz e professora; aos 4 anos de idade retornou à Argentina, tendo, a partir daí, levado uma vida com dificuldades financeiras e, para o sustento da família, trabalhou como costureira e operária; já aos 12 anos, Alfonsina escreveu seus primeiros versos, e, logo depois, como operária em fábrica de gorros, se destacou por seu humor e participação “na luta pelas reivindicações sociais, engajada nas fileiras anarquistas”; também teve destaque em experiências como atriz em companhia teatral e, em turnê que durou um ano, se apresentou em várias localidades do país; estudou na Escuela Normal Mixta de Maestros Rurales de Coronda, onde também trabalhou, depois de formada mudou-se para Rosário e ali exerceu o ofício de professora, colaborou regularmente nas revistas Mundo Rosarino e Monas y Monadas, tornando-se dirigente do Comitê Feminista de Santa Fé; já em Buenos Aires, agora trabalhando em farmácia e também como vendedora de loja, logo tornou-se “corresponsal psicológico”, na empresa Freixas Hermanos, importadora de azeite de oliva; estreou com seu primeiro livro (La inquietud del rosal), fez suas primeiras colaborações literárias nas revistas Caras y Caretas, Fray Mocho, El Hogar, Mundo Argentino, La Nota, estabeleceu vínculos com o grupo intelectual da revista Nosotros, participou de saraus, passou a recitar seus poemas em bibliotecas, prosseguiu com a militância em grupos feministas e socialistas; depois, colaborou com o jornal La Nacion, fazendo uso do pseudônimo Tao-Lao; continuando no desempenho da atividade de professora, lecionou em várias escolas: Colegio Marcos Paz, Escuela de Niños Débiles del parque Chacabuco, Instituto de Teatro Infantil Labardén, Escuela Normal de Lenguas vivas, Conservatório de Música y Declamación e Escuela de Adultos Bolivar, onde, em aulas noturnas, ensinou “castellano y aritmética”; suas obras: La inquietud del rosal (1916), El Dulce daño (1918), Irremediablemente (1919), Languidez (1920), Ocre (1925), Poemas de Amor (poemas em prosa, 1926), Mundo de siete pozos (1934), Mascarilla y trébol (1938) e outros títulos em prosa e verso e peças teatrais; com suas atitudes inovadoras, as mulheres do seu tempo, umas a admiravam e outras a viam como perigosa e, com a publicação do poema 'La Loba', Alfonsina causou escândalo; recebeu premiações por sua obra; consta que a poeta suicidou-se caminhando para dentro do mar, e tal ato foi registrado poeticamente na canção ‘Alfonsina y el mar’ gravada por Mercedes Sosa; teve seu corpo resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938; três dias antes de suicidar-se enviou para publicação em um jornal o soneto ‘Voy a dormir’.