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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Sully-Prudhomme: Solitude

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[traduzido por Carlindo Lellis*]

Quando um poema componho em torturados
Hemistíquios, não os mais perfeitos
Pensamentos que tenho: os mais amados
Versos que eu imagino não são feitos.

Como em redor de flores, borboletas
O esplendor de asas lépidas agitam,
Em torno deste ideal, às brandas setas
De um sol de ouro, estival, versos palpitam.

Logo, porém, que os toco, o leve bando
Desfaz-se... à minha dor constante e viva
O pólen de íris fúlgido deixando
Da asa tremendo, delicada, esquiva.

Sully Prudhomme

Au Lecteur

Quand je vous livre mon poème,
Mon cœur ne le reconnaît plus:
Le meilleur demeure en moi-même,
Mes vrais vers ne seront pas lus.

Comme autour des fleurs obsédées
Palpitent les papillons blancs,
Autour de mes chères idées
Se pressent de beaux vers tremblants;

Aussitôt que ma main les touche
Je les vois fuir et voltiger,
N’y laissant que le fard léger
De leur aile frêle et farouche.

(Stances et Poèmes — 1865)

* Nota de Mello Nóbrega, tradutor de Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme...:
(Tradução ou, melhor, paráfrase do poema liminar de Stances et Poèmes, de que abrange apenas as três primeiras estrofes. Texto colhido na Antologia de Poetas Franceses — Do século XV ao século XX —, organizada por [R.] Magalhães Júnior. [Au Lecteur, no original, contém 5 estrofes])
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Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888)..., em prosa, escreveu Réflexions sur l’art des vers (prosa, 1892) e outros escritos (diário e pensamentos); Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, “de saúde precária” desde a infância, a partir de 1870, sofreu mais complicações, teve paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora]; teve poemas musicados, recebeu honrarias e premiações por sua obra, entre as quais o já citado 1º Prêmio Nobel de Literatura (1901).

domingo, 14 de agosto de 2022

Théophile Gautier: A Arte

 
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[traduzido por Carlindo Lellis]

Sai mais perfeita e trabalhada
             E nobre e rara,
A obra, entre esforços, acabada:
Esmalte, verso, ônix, carrara…

Nada de adorno contrafeito
             E jóia falsa,
E, para que marches direito,
Musa, um coturno estreito calça!

Despreza esse ritmo vulgar,
Como um sapato largo, a modo
             Que o possa todo
Pé descalçar e recalçar.

O próprio barro que na tua
Mão, escultor, vive se dele
Teu pensamento além flutua,
             Forte, repele!

Luta e porfia contra o paros
Duro e o carrara, a jeito, apura,
Esses, os fiéis guardas avaros
             Da Forma pura.

Toma emprestado a Siracusa
O bronze fino e eterno, por
             Onde se acusa
O traço firme e encantador.

Tu, de mão leve, cuidadosa,
Na ágata firme, de buril
Talha em figura esplendorosa
             Fébeo perfil.

Pintor, despreza as aquarelas,
             E fixa a cor
Leve, das coisas mais singelas
No forno de um esmaltador.

             E, das sereias
Azuis, voltando em convulsões,
As caudas leves, de algas cheias,
Faze as figuras dos brasões.

Dentro em seu limbo triobado,
A Imaculada e o seu Jesus
Coloca e o Globo, este encimado
             Da mesma cruz.

Tudo passa! Mas o robusto
Traço do Artista à eternidade
             Resiste: o busto
Resta onde, outrora, foi cidade.

E, na medalha soterrada
Que acha, no campo, o lavrador
             Fina, gravada,
Fica a imagem do imperador.

Os próprios deuses morrem… Não
Morrem, no entanto, os soberanos
             Versos, que são
Bronzes eternos, contra os anos.

Talha, cinzela, lima e grava...
Teu sonho imenso, atormentado,
             Na Forma escrava
Fique num bloco eternizado!

Théophile Gautier

L’Art

Oui, l'oeuvre sort plus belle
D'une forme au travail
Rebelle,
Vers, marbre, onyx, émail.

Point de contraintes fausses!
Mais que pour marcher droit
Tu chausses,
Muse, un cothurne étroit.

Fi du rythme commode,
Comme un soulier trop grand,
Du mode
Que tout pied quitte et prend!

Statuaire, repousse
L'argile que pétrit
Le pouce
Quand flotte ailleurs l'esprit:

Lutte avec le carrare,
Avec le paros dur
Et rare,
Gardiens du contour pur;

Emprunte à Syracuse
Son bronze où fermement
S'accuse
Le trait fier et charmant;

D'une main délicate
Poursuis dans un filon
D'agate
Le profil d'Apollon.

Peintre, fuis l'aquarelle,
Et fixe la couleur
Trop frêle
Au four de l'émailleur.

Fais les sirènes bleues,
Tordant de cent façons
Leurs queues,
Les monstres des blasons;

Dans son nimbe trilobe
La Vierge et son Jésus,
Le globe
Avec la croix dessus.

Tout passe. L'art robuste
Seul a l'éternité.
Le buste
Survit à la cité.

Et la médaille austère
Que trouve un laboureur
Sous terre
Révèle un empereur.

Les dieux eux-mêmes meurent,
Mais les vers souverains
Demeurent
Plus forts que les airains.

Sculpte, lime, cisèle;
Que ton rêve flottant
Se scelle
Dans le bloc résistant!

[Émaux et Camées — 1852]
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. e Introdução de Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro — nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Théophile Gautier (1811 1872), francês de Tarbes, foi escritor, jornalista, poeta, crítico literário e de arte; defensor e propulsionador da “arte pela arte”, pelo culto à beleza da forma poética, que veio desaguar no surgimento do parnasianismo, Gautier transitou no romantismo, parnasianismo, simbolismo e decadentismo; colaborou com os periódicos La Chronique de Paris, La Presse, entre vários outros jornais da época; suas obras: La Cafetière (contos, 1831), Albertus ou L’Ame et le pêché (poesias, 1833), Mademoiselle de Maupin (romance, 1835), Le Jeunes-France (contos ou romances zombeteiros, 1833), La Comédie de la mort (poesias, 1838), Une tear du diable, Le Tricorne Enchanté, Pierrot Posthume (teatro, todos em 1839), Les Grotesques (crítica, 1843), Le Voyage en Espagne (relatos de viagem, 1843), Émaux et camées (poesias, 1852), Constantinopla (relatos de viagem, 1853), Les Beaux-Arts en Europe (crítica, 1855), L’Art Moderne (crítica, 1856), Honoré de Balzac (biografia, 1859), Le Capitaine Fracasse (romance, 1863), Voyage en Russe (relatos de viagem, 1867) e outros títulos.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Paul Verlaine: Meu sonho familiar

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[Traduzido por Carlindo Lellis]

Tenho este sonho: existe uma mulher
que eu não conheço e o seu carinho estende
sobre os meus males todos; que me quer
como eu a quero; enfim, que me compreende.

Nem um pesar, nem uma dor sequer
sofro sem que ela o sinta: ela me entende
e a grande dor que a minha fronte pende,
com seu pranto, ela faz amortecer...

É ela morena ou loura? Eu mesmo ignoro.
Seu nome? É tão querido como o nome
das pessoas amadas que morreram.

Olhos de estátua que um pesar consome!
Tem sua voz o timbre almo e sonoro
das vozes caras que se emudeceram.



Paul Verlaine

Mon rêve familier

Je fais souvent ce rêve étrange et pénétrant
D’une femme inconnue, et que j’aime, et qui m’aime,
Et qui n’est, chaque fois, ni tout à fait la même
Ni tout à fait une autre, et m’aime et me comprend.

Car elle me comprend, et mon coeur transparent
Pour elle seule, hélas! cesse d’être un problème
Pour elle seule, et les moiteurs de mon front blême,
Elle seule les sait rafraîchir, en pleurant.

Est-elle brune, blonde ou rousse? Je l’ignore.
Son nom? Je me souviens qu’il est doux et sonore,
Comme ceux des aimés que la vie exila.

Son regard est pareil au regard des statues,
Et, pour sa voix, lointaine, et calme, et grave, elle a
L’inflexion des voix chères qui se sont tues.

Poèmes Saturniens  1866
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valery, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.